Se o episódio 21 já havia sido intenso, o capítulo 22 de Kamen Rider Zeztz marca um ponto que ultrapassa uma simples virada na história ou a abertura de novos caminhos para arcos futuros. Trata-se de um capítulo trágico, denso e de rara profundidade na franquia, capaz de fazer o espectador, independentemente da idade, permanecer em silêncio por alguns segundos após os acontecimentos. Desta vez, a narrativa decide cobrar o preço da hesitação de Baku, confrontando-o com o peso do papel que carrega como protagonista e aparente última esperança da CODE, ao mesmo tempo em que testa os limites morais do que realmente significa ser um agente da organização.
A situação começa com uma falsa sensação de normalidade. Fujimi e Nasuka despertam em um parque, em plena luz do dia, sem sinal do Nightmare que deveria ter consumido tudo. A calmaria dura pouco. No centro de comando, Baku admite que falhou. O pesadelo das crianças atravessou a fronteira e agora está no mundo real. A missão seguinte não é simples contenção. A ordem é evitar o pior cenário possível, o que inclui eliminar Nox.


É nesse momento que o episódio abandona qualquer zona de conforto. O Agente 5 dirige-se diretamente a Baku e afirma que Nox já não pode mais ser considerado humano, deixando claro que, para ele, agentes não são heróis, mas instrumentos da CODE, e que, se Baku não consegue aceitar essa lógica, deve devolver o Driver. A declaração não é impulsiva, mas fria e pragmática, reforçada quando o próprio 5 se define como um cão de guarda da organização, alguém de lealdade absoluta e quase mecânica. Kureha, por sua vez, intervém com uma postura diferente, reconhecendo que Baku ainda tenta compreender o abismo entre o Mundo dos Sonhos e a realidade, e que sua hesitação não nasce da indiferença, mas da dificuldade de lidar com o peso moral da responsabilidade que assumiu.
Enquanto isso, Lady conclui a análise da cápsula de memória de Zero e questiona Nox se ele está disposto a abrir mão da própria alma. Ele aceita. A decisão reforça que há um plano maior em andamento. O Nightmare se manifesta na cidade de forma devastadora. O Agente 5 e Kureha, a Agente 6, enfrentam Nox no topo de um prédio. Baku não está lá.


O confronto toma um rumo brutal. Nox abandona o espetáculo das armas extravagantes e saca uma arma comum. O gesto é simbólico e chocante, sobretudo por partir de um personagem que, dentro do histórico atual da franquia, dificilmente abriria mão de um artefato fictício pensado para impulsionar a venda de produtos. A violência deixa de ser estilizada e se torna direta. Kureha é atingida. O Agente 5 tenta reagir, mas também cai. A ausência de floreios amplia o impacto da cena. O Agente 3 confirma, pelos sinais vitais, que ambos morreram.
A reação em cadeia é imediata. Nasuka desmorona. Fujimi, tomado pela raiva, confronta Baku. Ele deveria estar protegendo as pessoas contra Nightmares. Baku responde que não conseguiu aceitar a ideia de assassinar alguém. O dilema moral que o paralisou transforma-se em culpa. Ele grita que, se estivesse lá, isso não teria acontecido. A série constrói aqui um paralelo evidente. Baku hesita diante da possibilidade de tirar uma vida. Nox não hesita em tirar duas.
O ponto de ruptura acontece quando Baku retorna ao campo de batalha e encontra 5 e Kureha caídos. Nox reforça sua visão de mundo ao afirmar que um dia um pesadelo destruirá esse mundo distorcido. O disparo que lança Baku do prédio não é apenas físico. Ele é arremessado de volta ao próprio subconsciente.


No Mundo dos Sonhos, Baku encara um cenário de ruínas em chamas sob uma lua vermelha. Um bebê chora entre os escombros. Nem revela conhecer seu verdadeiro nome. A sugestão é clara. O trauma que alimenta o poder de Zeztz está ligado a um evento do passado que ele não lembra. Se o trauma das crianças gerou o Disaster Nightmare, o de Baku pode ter gerado algo ainda maior. A fonte de seu poder não é pura. É um pesadelo.
Ao confrontar essa entidade interior, Baku não busca redenção. Ele exige poder. A nova forma, Zeztz Catastrom, nasce dessa decisão. Diferentemente de um simples modo berserk, Catastrom altera sua postura. Ele abandona o discurso idealista e assume uma frieza quase mecânica. Ao declarar que fará o pesadelo de Nox se tornar realidade, Baku não soa como um herói tradicional, mas como alguém que decidiu aceitar o caos como ferramenta. Esse tipo de forma, que leva o herói a um estado mais brutal, por vezes animalesco e desprovido de freios morais, não é novidade na franquia, mas a maneira como foi apresentada aqui despertou forte tensão e desconforto.


Visualmente, a forma representa uma fusão dos aspectos anteriores de Zeztz, como se todas as bases convergissem em um único ponto de destruição. O contraste é evidente. Nox acusa Baku de ser produto dos próprios pesadelos da CODE. A série deixa a provocação no ar. E se Zeztz não for apenas um agente que combate Nightmares, mas algo nascido deles?
A luta final do episódio reforça essa virada. Catastrom ignora os ataques de Nox. Um simples empurrão destrói sua arma. A inversão de poder é total. O episódio encerra em clima de perseguição, com Zeztz avançando de forma quase implacável.
Narrativamente, o capítulo funciona como mais um divisor de águas entre tantos já apresentados. Ele volta a questionar a moralidade da CODE, intensifica a rivalidade entre Baku e Nox e sugere que a linha entre sonho e realidade está cada vez mais frágil. Também expõe que confiar cegamente na organização não é necessariamente a resposta correta, embora ainda não deixe claro quais são, de fato, suas verdadeiras intenções. A forma Catastrom carrega uma aura negativa forte demais para representar uma solução definitiva.


Ao mesmo tempo, a decisão de não apresentar respostas imediatas mantém a tensão. Agente 5 e Kureha estão realmente mortos ou existe algo mais por trás? A série já demonstrou que a fronteira entre mundos permite ambiguidades, mas aqui o peso dramático é tratado com seriedade suficiente para não soar como um recurso conveniente. Se os dois reaparecerem no futuro, que seja por meio de uma solução tão interessante e emocionante quanto foi o impacto de suas mortes, causadas por um vilão inescrupuloso, complexo e ainda cercado de mistérios não revelados.
O episódio 22 consolida a transição da estrutura de missão da semana para o tipo de arco de meia-série presente no gênero, que marca mudanças significativas para todos os personagens. Baku aprende que duvidar pode ser saudável, mas hesitar em momentos críticos traz consequências. A grande questão daqui para frente não é apenas se ele derrotará Nox, mas que tipo de agente escolherá ser. Ele já escolheu ser o herói em um dilema semelhante há alguns episódios, mas agora surge a pergunta: que tipo de herói ele será? Um membro obediente da CODE ou alguém capaz de equilibrar lógica e consciência?
Confesso que não esperava o que ocorreu neste episódio, se a temporada precisava de um momento que redefinisse suas apostas, ele aconteceu aqui. E não foi sutil.
Nota: 10/10

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