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A virada do ‘Super Sentai’: da crise de ‘Turboranger’, à recuperação de ‘Fiveman’ e ao sucesso de ‘Jetman’

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Durante décadas, o Super Sentai se consolidou como uma das franquias mais importantes da televisão japonesa, atravessando diferentes gerações e acompanhando as mudanças da sociedade. Porém, no final dos anos 1980, a franquia enfrentou um dos períodos mais delicados de sua história. A queda de audiência, o desgaste da fórmula tradicional e um cenário televisivo cada vez mais competitivo fizeram com que a continuidade da franquia fosse questionada.

O momento mais crítico começou com Kousoku Sentai Turboranger (高速戦隊ターボレンジャー, 1989) produção que chegou com a missão de apresentar uma nova geração de heróis. A série trouxe uma proposta inédita ao colocar todos os seus integrantes como estudantes do ensino médio, explorando temas ligados à juventude, amizade e energia. Seu conceito visual também buscava dialogar com o público infantil da época, utilizando o automóvel como principal inspiração em um período marcado pelo sucesso de brinquedos relacionados a veículos.

Vale lembrar que esse movimento vinha logo após Choujuu Sentai Liveman (超獣戦隊ライブマン, 1988), uma produção que já havia ampliado o tom da franquia ao apresentar uma narrativa mais densa e dramática dentro do padrão da época. Liveman se destacou por trazer conflitos mais sérios, temas de traição e rivalidade entre antigos amigos, além de uma abordagem mais pesada em sua temática central, indicando uma tentativa anterior de amadurecimento do Super Sentai em relação ao seu público-alvo.

Apesar de possuir elementos fortes e ter alcançado bons resultados comerciais, especialmente com o lançamento de seus brinquedos, Turboranger acabou enfrentando um problema que afetaria diretamente sua trajetória: a mudança no horário de exibição. Até setembro de 1989, a série era exibida aos sábados, entre 18:00 e 18:25 na TV Asahi, tradicional faixa do início da noite voltada ao público infantil. A partir de outubro do mesmo ano, passou para as sextas-feiras, entre 17:30 e 17:55, o que alterou significativamente o acesso do público-alvo e impactou sua audiência. Em paralelo, outras produções do mesmo período também passaram por reestruturações de grade, como Ranma 1/2 na Fuji TV, que após estrear em horário nobre de sábado entre 19:30 e 20:00, também foi deslocado no mesmo período para o mesmo dia e horário, dentro do mesmo movimento de reorganização da programação televisiva japonesa.

A mudança de horário aconteceu em um período em que a televisão japonesa também passava por uma transformação mais ampla. O final dos anos 1980 foi marcado pelo aumento da oferta de programas, pela expansão da concorrência entre emissoras e pela maior fragmentação da audiência infantil. Diferentemente de anos anteriores, quando poucas atrações concentravam grandes índices de audiência em horários fixos, o público passou a ter mais opções de entretenimento distribuídas ao longo da semana, incluindo animes, variedades e novas produções voltadas ao público jovem. Nesse cenário, a fidelização de audiência tornou-se mais difícil, e mudanças de grade como as ocorridas em Turboranger e Ranma ½ refletiam uma adaptação das emissoras a esse novo ambiente competitivo.

Com a troca de horário, muitos espectadores não acompanharam a nova programação, causando uma queda nos índices de audiência. Mesmo com o bom desempenho comercial de produtos como o robô Turbo Robo, a diferença entre vendas e popularidade televisiva chamou a atenção dos produtores. Pela primeira vez em muitos anos, surgiram discussões dentro da equipe sobre o futuro do Super Sentai.

Além das questões externas, Turboranger também enfrentou desafios criativos. A tentativa de unir o espírito jovem, o tema automobilístico e elementos fantásticos resultou em uma série diferente das anteriores, mas que nem sempre conseguiu apresentar uma identidade tão forte quanto outras produções da franquia. O resultado foi uma obra importante, mas que revelou a necessidade de mudanças para manter o interesse do público.

Em 1990, a responsabilidade de recuperar o caminho da franquia ficou com Chikyu Sentai Fiveman (地球戦隊ファイブマン, 1990). A produção trouxe conceitos inéditos para o Super Sentai: todos os integrantes eram irmãos e também professores. A ideia buscava aproximar os heróis do cotidiano das famílias japonesas, abordando temas como educação, união familiar e responsabilidade.

Entretanto, a proposta não conseguiu reverter imediatamente a situação. Fiveman enfrentou uma das fases mais difíceis da história do Super Sentai, com uma audiência muito baixa e uma recepção inicial complicada. A série chegou a registrar índices preocupantes, demonstrando que a fórmula tradicional da franquia já não era suficiente para garantir o interesse do público.

Mesmo em meio às dificuldades, Fiveman teve um papel essencial na recuperação da franquia. A produção começou a receber mudanças durante sua exibição, buscando histórias mais intensas, novos conflitos e uma abordagem menos previsível. A chegada de novos elementos no decorrer da série ajudou a melhorar sua repercussão e mostrou aos produtores que o caminho estava na renovação.

Esse aprendizado seria fundamental para a chegada de Chojin Sentai Jetman (鳥人戦隊ジェットマン, 1991). Com o futuro do Super Sentai ainda sendo discutido, a equipe de produção decidiu realizar uma mudança profunda na maneira de contar histórias. A proposta era abandonar a ideia de uma série voltada exclusivamente ao público infantil e criar uma aventura que também pudesse atrair adolescentes e adultos.

Para essa transformação, novos profissionais foram chamados, incluindo o diretor Keita Amemiya e o roteirista Toshiki Inoue. A produção passou a trabalhar com personagens mais complexos, conflitos emocionais, relacionamentos amorosos e dramas pessoais, aproximando o Super Sentai de uma narrativa mais madura.

Jetman se tornou um divisor de águas dentro da franquia. Os heróis deixaram de ser apenas representantes de arquétipos e passaram a possuir falhas, dúvidas e conflitos internos. A relação entre os integrantes da equipe ganhou grande importância, criando uma história com maior peso dramático sem abandonar as batalhas, os robôs gigantes e a essência do tokusatsu.

A mudança funcionou. Jetman conseguiu recuperar o interesse do público e mostrou que o Super Sentai ainda tinha espaço para continuar existindo, desde que estivesse disposto a se reinventar. A série se tornou uma das mais lembradas pelos fãs e abriu caminho para uma nova fase da franquia durante os anos 1990.

O período entre Turboranger, Fiveman e Jetman representa um dos capítulos mais importantes da história da franquia. A mudança de horário revelou uma crise que já vinha sendo construída pela transformação do mercado televisivo, Fiveman mostrou que era necessário romper com antigas fórmulas e Jetman apresentou a renovação que salvou a franquia.

Mais do que uma sequência de produções, essa fase mostra a capacidade do tokusatsu de se adaptar aos novos tempos. O quase fim do Super Sentai no ínicio dos anos 1990 acabou se tornando o ponto de partida para uma das maiores reinvenções da franquia, garantindo sua permanência como uma das maiores marcas da cultura pop japonesa, mesmo após seu encerramenta em 2026.

Confira nossa resenha em áudio em nosso podcast sobre Fiveman e Jetman:

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