Conheci a obra de James Clavell durante os anos 1990, em uma época em que minhas pesquisas sobre cinema e televisão frequentemente começavam por um nome e terminavam em caminhos completamente inesperados. Naquele caso, o ponto de partida foi Pierce Brosnan, que durante boa parte da década interpretou nos cinemas o espião britânico James Bond. Procurando outras produções de sua carreira, acabei chegando à adaptação de Casa Nobre (Noble House, 1988), outra obra de Clavell.
Pesquisando mais sobre o autor, descobri que um ator de quem já gostava, Richard Chamberlain, havia estrelado uma minissérie chamada Xógum. Chamberlain, que também interpretou Jason Bourne no final dos anos 1980, já era conhecido por mim por trabalhos como Pássaros Feridos e como Allan Quatermain em As Minas do Rei Salomão (King Solomon’s Mines, 1985). Antes mesmo de conseguir assistir à produção, encontrei o livro. Anos depois, Xógum voltaria à minha vida, mas não por causa de James Bond ou de qualquer outro astro de Hollywood. Desta vez, o caminho seria o tokusatsu.


Publicado originalmente em 1975, Xógum: A Gloriosa Saga do Japão (Shōgun) é um dos romances mais conhecidos de James Clavell e integra sua chamada Asian Saga. A história transporta o leitor para o Japão do início do século XVII, em um momento de profundas transformações políticas e de crescente presença europeia no arquipélago. O protagonista John Blackthorne, inspirado livremente no navegador inglês William Adams, torna-se uma porta de entrada para um universo completamente diferente daquele que conhecia. Ao seu redor está a disputa pelo poder envolvendo Toranaga, personagem inspirado em Tokugawa Ieyasu. Clavell mistura figuras e acontecimentos históricos com ficção, construindo uma narrativa monumental sobre choque cultural, política, religião, guerra e sobrevivência.
É justamente essa dimensão que torna nova edição brasileira pela, lançada em junho 2025 pela Editora JBC uma excelente oportunidade para revisitar o livro. Com mais de mil páginas em suas edições originais, Xógum exige tempo e atenção, mas recompensa o leitor pela riqueza de seu universo. Mais do que uma aventura sobre um estrangeiro descobrindo o Japão, a obra utiliza o olhar de Blackthorne para apresentar um país complexo, cujas estruturas sociais e políticas são inicialmente incompreensíveis para alguém vindo da Europa. Naturalmente, trata-se de uma visão construída por um autor ocidental e de uma obra de ficção, mas seu fascínio permanece justamente na maneira como transforma a História em um grande drama humano.


Cinco anos após o lançamento do romance, Xógum ganhou uma adaptação televisiva que se tornou um enorme acontecimento. A minissérie de 1980 trouxe Richard Chamberlain como John Blackthorne e ninguém menos que Toshiro Mifune no papel de Toranaga, reunindo um elenco internacional para uma produção ambiciosa. Para quem conheceu a obra através da televisão, como aconteceu com muitos espectadores daquela geração, a presença de Chamberlain ajudava a tornar a jornada do inglês familiar, enquanto Mifune emprestava ao personagem uma autoridade impossível de ignorar. A produção também contou com Yoko Shimada como Mariko, personagem fundamental para a história e uma das interpretações mais lembradas da adaptação.
E é aqui que a primeira conexão com o universo do tokusatsu aparece. Antes de se tornar internacionalmente conhecida por Xógum, Yoko Shimada havia participado de Kamen Rider (仮面ライダー, 1971), interpretando Hiromi, personagem ligada ao Snack Amigo, o café frequentado pelos protagonistas e administrado por Tobei Tachibana, mentor de Takeshi Hongo e Hayato Ichimonji. É uma ligação curiosa porque demonstra como o tokusatsu, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, serviu como espaço de formação e passagem para inúmeros profissionais que posteriormente construiriam carreiras em diferentes áreas do cinema e da televisão.


Em 2024, uma nova adaptação de Xógum conquistou uma geração completamente diferente. Com uma abordagem mais preocupada em apresentar os personagens japoneses como protagonistas de sua própria história, a série trouxe Hiroyuki Sanada como Yoshii Toranaga, ao lado de Cosmo Jarvis como Blackthorne e Anna Sawai como Mariko. O resultado foi um enorme sucesso de crítica e premiações, incluindo importantes reconhecimentos para Sanada e para a própria produção. A nova versão também demonstrou como uma mesma obra pode ser reinterpretada de acordo com seu tempo, não apenas modernizando aspectos técnicos, mas alterando o próprio ponto de vista através do qual aquele Japão é apresentado ao público.
Sanada, por sinal, representa uma das conexões mais interessantes entre Xógum e o universo que acompanhamos no Tokusatsu.com.br. Sua trajetória começou na Japan Action Club (JAC), fundada por Sonny Chiba e responsável pela formação de diversos artistas especializados em ação. Ao longo dos anos, Sanada participou de produções de tokusatsu ou que dialogavam diretamente com o gênero e o cinema fantástico antes de construir uma carreira internacional sólida. Existe ainda uma interessante simbologia em sua presença como Toranaga: na adaptação de 1980, o personagem era interpretado por Toshiro Mifune, um dos maiores nomes da história do cinema japonês. Mais de quatro décadas depois, Sanada assumiu esse mesmo papel, representando uma nova geração de atores japoneses capazes de ocupar espaços centrais em grandes produções internacionais.


As conexões, entretanto, não terminam em Sanada. Takehiro Hira, que interpreta Ishido na produção de 2024, também é conhecido por viver Hiroshi Randa em Monarch: Legado de Monstros (Monarch: Legacy of Monsters), série que expande o universo do MonsterVerse da Legendary e coloca Godzilla no centro de uma mitologia compartilhada. Outros nomes do elenco também possuem passagens por produções japonesas de ficção científica e fantasia, incluindo Shinnosuke Abe, conhecido pelos fãs por sua participação em Chouseishin Gransazer (超星神グランセイザー, 2003) e participações em séries da franquia Kamen Rider. Da mesma forma, ao observar o elenco da adaptação de 1980, é possível encontrar artistas com trajetórias ligadas ao cinema japonês de monstros, que também fazem parte do gênero.
Talvez essa seja a maior riqueza de revisitar Xógum: perceber como uma obra pode nos acompanhar por diferentes momentos da vida e ganhar novos significados a cada reencontro. Para mim, tudo começou indiretamente com James Bond, passou por Richard Chamberlain e por um livro que encontrei antes mesmo de assistir à antiga minissérie. Décadas depois, o retorno aconteceu através de Hiroyuki Sanada e de conexões inesperadas com o tokusatsu. Ler este livro, portanto, não representa apenas a oportunidade de conhecer um clássico da literatura histórica, mas também um convite para descobrir como Xógum continua estabelecendo pontes improváveis entre diferentes épocas, mídias e universos.
Nota: No Brasil, a grafia de Shōgun é Xógum, e foi dessa forma que versão live-action de 2024 e as primeiras edições do livro foram lançadas. A edição de 2025 da JBC e a exibição da série e 1980 na Rede Globo, porém, segue a grafia original, que é a romanização direta de 将軍 (Shōgun).
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