Com a estreia de Kakusei Hunter Omegahorn (角醒ハンター オメガホーン, 2026), sucessora de Super Policial do Espaço Gavan Infinity (超宇宙刑事ギャバン・インフィニティ, 2026), o PROJECT R.E.D. dá mais um passo na construção de um novo universo de heróis idealizado pela Toei Company. Em entrevista ao jornal Asahi Shimbun, Shinichiro Shirakura, diretor executivo sênior da empresa e responsável pelo Departamento de Estratégia de Personagens, explicou a visão por trás do projeto e revelou como a Toei pretende romper com o modelo tradicional estabelecido pelos Super Sentai.
Uma das primeiras dúvidas levantadas pelos fãs após a estreia de Gavan Infinity foi sua duração. Embora a Toei nunca tenha confirmado oficialmente o número de episódios, o encerramento da série com 23 capítulos e o anúncio de Omegahorn deixaram claro que o plano sempre foi trabalhar com temporadas de aproximadamente seis meses. Questionado se o fim antecipado da série representava um cancelamento, Shirakura foi categórico.
“De forma alguma foi um cancelamento motivado pela audiência ou por outros indicadores. Isso já estava decidido desde o início. As séries Super Sentai sempre exibiram uma produção por um ano. Com o PROJECT R.E.D., queremos acelerar esse ciclo para seis meses, realizar sucessivos testes com ideias novas e, ao mesmo tempo, ampliar a quantidade de propriedades intelectuais, ou IPs.”
Segundo o executivo, o formato anual dos Super Sentai dificultava o desenvolvimento de personagens e impedia que as franquias tivessem continuidade entre si.
“No Super Sentai, os mundos de uma produção e de outra basicamente não se cruzavam, por isso criávamos personagens novos todos os anos. Assim, era difícil dar profundidade a um único personagem e, nas lojas de brinquedos, os produtos da série anterior deixavam de ocupar as prateleiras.”
Para solucionar esse problema, o PROJECT R.E.D. pretende construir um universo compartilhado, em que protagonistas de diferentes produções possam coexistir e retornar em histórias futuras.
“Na série ‘Vingadores’, da Marvel, tanto o Homem de Ferro quanto o Capitão América trazem consigo uma história construída ao longo do tempo, ao mesmo tempo que existe a graça de vê-los se cruzar dentro de um mesmo universo. Para formar esse universo, também é necessário acumular um número maior de produções.”
Shirakura afirma que o sucesso do projeto não poderá ser medido imediatamente.
“Não se trata de dizer que Gavan foi um sucesso ou de julgar agora como Omegahorn se saiu. O verdadeiro valor desta série provavelmente só se tornará visível daqui a dois ou três anos.”
O diretor também revelou que cada série do PROJECT R.E.D. tem uma função específica dentro da evolução desse novo universo.
“Gavan recebeu o pesado encargo de representar a ‘formatura dos Sentai’ e cumpriu muito bem esse papel. Como obra sucessora, conservou a atmosfera dos Sentai e avançou um passo. Ao mesmo tempo, em consideração aos fãs, precisou conduzir o projeto com cuidado para não avançar mais do que esse único passo. Omegahorn, a produção seguinte, precisa dar mais três passos, e a terceira obra deverá avançar cinco.”
Ao falar sobre Kakusei Hunter Omegahorn, Shirakura explicou que a série muda o foco narrativo ao apresentar um protagonista que não nasce como herói tradicional.
“Ele é alguém que age mais para realizar o próprio sonho do que em nome da justiça. Ainda assim, não consegue ignorar quem está passando por dificuldades e acaba envolvido nas batalhas entre caçadores. É a história de um protagonista que se torna herói contra a própria vontade.”
Segundo ele, esse novo direcionamento também responde a uma limitação dos Super Sentai.
“No Super Sentai, o simples fato de haver cinco personagens principais inevitavelmente reduzia o espaço para desenvolver a personalidade de cada um. Quando a divisão entre aliados e inimigos está bem estabelecida, a construção do herói pode ser superficial. Isso facilita o trabalho de quem produz, mas acaba deixando de lado a pergunta: será que esse é realmente o tipo de herói que queremos apresentar às crianças na era Reiwa?”
A intenção agora é construir personagens cuja identidade não dependa da existência de um vilão.
“O importante é criar um herói que não seja definido pelo inimigo. Queremos conceber personagens capazes de continuar vivos no programa seguinte, mesmo que o mundo da série mude.”
Shirakura acrescenta que o objetivo da Toei vai além da figura clássica do herói.
“Acho que, no futuro, aquilo que entregamos ao público nem precisa necessariamente ser um herói. Ainda assim, queremos apresentar pessoas admiráveis: personagens que, mesmo com defeitos, façam alguém pensar ‘eu gostaria de ser assim’. Se uma única imagem como essa permanecer com as crianças, a obra terá cumprido uma razão para existir.”
Outro tema abordado na entrevista foi a presença dos Kakuzyu, criaturas gigantes que passam a integrar o universo de Omegahorn. Para Shirakura, a abordagem da Toei difere daquela adotada por estúdios tradicionalmente ligados ao gênero kaiju.
“De algum modo, a Toei sempre teve dificuldade com esse tipo de tokusatsu. Produções com kaiju adquirem um caráter de ficção muito acentuado. Seja em Kamen Rider, seja nos Sentai, a Toei trabalhou com heróis de tamanho humano, quase como se eles lutassem no ‘quintal da realidade’.”
O diretor reconheceu que a presença de caçadores e monstros pode lembrar outras franquias, especialmente Monster Hunter, mas destacou que a proposta é diferente.
“Não estamos tentando imitar Godzilla ou Ultraman. Como há também a figura do caçador, a premissa me lembrou o popular jogo ‘Monster Hunter’. Talvez eu leve uma bronca por dizer isto, mas não tivemos a intenção de copiar.”
Segundo Shirakura, o diferencial da série está justamente na convivência entre humanos e criaturas gigantes.
“Outra diferença entre Omegahorn e Godzilla é que esta é uma história sobre a relação entre os kaiju e seres humanos de tamanho normal. Nós mesmos mergulhamos, como jogadores, em um mundo onde vivem monstros chamados ‘Kakuzyu. Se pudermos proporcionar essa experiência ao público em uma produção live-action, será algo novo.”
Questionado sobre o retorno de Kohei Nagata, intérprete de Reiji Doki/Gavan Infinity, em Omegahorn, Shirakura preferiu manter o mistério.
“Ainda que o mesmo personagem volte a surgir na série, talvez haja alguns detalhes diferentes. Acho que seria divertido se o público pudesse brincar com a pergunta: ‘Qual versão de Gavan você prefere?'”
Por fim, o executivo afirmou que a Toei precisa seguir em frente, mesmo reconhecendo a importância histórica dos Super Sentai.
“Acho que os Super Sentai são uma marca maravilhosa. Durante muito tempo, continuaram mostrando o que é um herói. Mas não podemos simplesmente voltar a eles agora. Se fizermos isso, desaparecerá de nós a consciência de que precisamos levar novos heróis ao mundo de hoje.”
Ele também comentou que a equipe criativa tem liberdade para assumir riscos durante o desenvolvimento da nova franquia.
“Os veteranos inevitavelmente querem providenciar uma corda de segurança e um abrigo. Começamos a pensar em criar determinado rumo para garantir que tudo fique seguro e já não temos coragem de buscar uma terra nova, mesmo correndo o risco de nos perder pelo caminho.”
Encerrando a entrevista, Shirakura pediu paciência ao público e afirmou que a verdadeira proposta de Kakusei Hunter Omegahorn só ficará evidente na segunda metade da série.
“Ainda que algo dê errado, não se trata de um programa que ficará um ano no ar. Quer o resultado seja bom, quer seja ruim, esse desafio certamente servirá de alimento para a próxima tentativa. Quanto a Omegahorn, porém, eu gostaria de pedir que o público acompanhasse pelo menos até a segunda metade. Quando ela chegar, aquilo que o programa pretende fazer deverá ficar claro tanto para os espectadores quanto para o setor.”
Fonte: Asahi
