O primeiro episódio de Ultraman Teo, intitulado O Homem que Veio de H12 (H12から来た男), chega com o peso simbólico de celebrar seis décadas de uma das franquias mais importantes da cultura pop japonesa. Dirigido por Takashi Ninomiya e com roteiro de Shigenori Tanabe, o episódio propõe um recomeço que mistura tradição e tentativa de renovação, mas já deixa claro, desde os primeiros minutos, que esta não será uma estreia totalmente segura em suas escolhas.
A abertura aposta no impacto. O episódio começa com uma sequência de destruição em larga escala que rapidamente estabelece o tom dramático e a origem trágica do protagonista. É um início forte, quase abrupto, que contrasta diretamente com a transição para o cotidiano humano de Ibuki Mitsuishi, criando um choque tonal interessante. Essa mudança funciona não apenas como respiro narrativo, mas também como ferramenta para destacar o deslocamento do personagem, um estrangeiro tentando entender um mundo que não é o seu.
Ibuki é, sem dúvida, o elemento mais interessante do episódio. Sua rotina como estudante de veterinária e sua tentativa quase antropológica de compreender os costumes humanos, anotando comportamentos e reproduzindo-os de forma literal, trazem um humor leve e funcional. No entanto, há também uma camada de solidão e inadequação que sustenta o personagem emocionalmente. Ele não pertence àquele mundo, e o episódio deixa isso claro sem precisar verbalizar excessivamente.


O problema surge quando a narrativa tenta expandir esse universo humano ao redor dele. A introdução de múltiplos personagens secundários acontece de forma acelerada, e poucos deles conseguem estabelecer presença ou carisma imediato. Isso não chega a comprometer o episódio por completo, mas gera uma sensação de superficialidade, como se estivéssemos sendo apresentados a peças importantes sem o tempo necessário para entendê-las. Ainda assim, a impressão inicial é de que esses personagens foram concebidos como pessoas relativamente comuns, com personalidades menos caricatas do que em parte das produções mais recentes da franquia, o que pode favorecer seu desenvolvimento ao longo da série.
Narrativamente, o episódio se estrutura a partir de uma sucessão de eventos que escalam rapidamente: fenômenos celestes, encontros inesperados e a iminência de uma ameaça. Essa progressão mantém o ritmo dinâmico e garante o entretenimento, mas também evidencia uma certa familiaridade estrutural. A escolha de, mais uma vez, apresentar um mundo inicialmente alheio à existência dos kaijus reforça uma sensação de repetição dentro da franquia, especialmente considerando o contexto comemorativo da série. Para uma obra que carrega o marco de 60 anos, era razoável esperar uma abordagem mais ousada nesse aspecto.
Ainda assim, Ultraman Teo encontra sua identidade na forma como trata seu herói. A transformação de Ibuki não é apenas um momento de espetáculo, mas também de dúvida. Há uma sugestão sutil de que o poder que ele assume não lhe pertence originalmente, o que adiciona uma camada de mistério e potencial conflito interno. Esse detalhe, embora discreto, é um dos elementos mais promissores da série. Soma-se a isso o fato de que Ibuki demonstra uma clara relutância em lutar. Seu trauma torna o conflito algo que ele procura evitar, fazendo com que sua primeira batalha aconteça mais por necessidade do que por impulso heroico. Essa escolha ajuda a diferenciar o protagonista e reforça sua humanidade.


Outro aspecto interessante é a proposta de produção adotada pela Tsuburaya Productions em Ultraman Teo. A série passa a dividir cada episódio entre um diretor responsável pelas cenas dramáticas e outro dedicado aos efeitos especiais. Nesta estreia, essa abordagem já apresenta resultados positivos, permitindo que o desenvolvimento dos personagens tenha espaço sem comprometer o ritmo das sequências de ação.
As cenas de ação, supervisionadas por Takanori Tsujimoto, cumprem seu papel, mas se destacam mais pela proposta do que pela execução. Teo não surge como um lutador experiente; pelo contrário, sua insegurança é evidente. Isso se reflete em combates visualmente mais caóticos e menos refinados, o que pode ser interpretado tanto como limitação quanto como escolha narrativa. Há algo interessante em ver um Ultraman que ainda não domina sua própria força, lutando simultaneamente contra o inimigo e contra o próprio medo. Essa abordagem humaniza o herói, mesmo dentro de um espetáculo tradicionalmente pautado pela grandiosidade.
Visualmente, o episódio alterna entre momentos eficazes e certa poluição visual durante os confrontos, o que impacta a clareza da ação. Ainda assim, há criatividade suficiente para manter o engajamento, especialmente nos momentos finais da batalha, que conseguem entregar impacto sem depender exclusivamente da escala.


Outro ponto que merece destaque é a introdução de uma perspectiva mais global dos acontecimentos, sugerida por cenas envolvendo organizações e observadores externos. Essa camada amplia o escopo da narrativa e indica que a série pretende trabalhar não apenas o conflito individual de Ibuki, mas também as consequências mais amplas da presença dos kaijus e dos Ultras na Terra.
No fim, o episódio de estreia de Ultraman Teo é uma experiência curiosa. Ao mesmo tempo em que apresenta fragilidades claras, principalmente no excesso de personagens e na sensação de repetição estrutural, também demonstra potencial narrativo e carrega ideias interessantes sobre identidade, pertencimento e medo. Também chama atenção a decisão de a série não depender, ao menos neste primeiro episódio, da mitologia construída ao longo dos 60 anos da franquia. Em vez de viver apenas de referências ou do retorno de heróis clássicos, Ultraman Teo demonstra interesse em construir sua própria identidade desde o início, uma escolha que pode fortalecer sua narrativa caso seja bem desenvolvida.
Não é uma estreia arrebatadora, mas está longe de ser descartável. É um começo “solidamente frágil”, que entretém, emociona em momentos pontuais e, acima de tudo, instiga. Há uma base promissora aqui, resta saber se a série conseguirá desenvolvê-la com mais confiança nos próximos episódios.
Nota: 7/10
Vale destacar que Ultraman Teo teve sua estréia mundial no Brasil, sendo exibido durante o evento Anime Friend 2026, junto a atração do show de Ultraman Live in Brazil .

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