Japão, dia 8 de fevereiro de 2026. O último capítulo de No. 1 Sentai Gozyuger (ナンバーワン戦隊ゴジュウジャー) encerrou, pelo menos por enquanto, uma das mais vitoriosas franquias de super-heróis do mundo, o Super Sentai (スーパー戦隊シリーズ). Uma história que começou em 5 de abril de 1975, fruto de uma ideia que não vingou: um esquadrão de Kamen Riders.
Desde então, 49 séries foram produzidas. Praticamente qualquer japonês consegue nomear pelo menos um esquadrão de heróis coloridos. No resto do mundo, é difícil encontrar quem não tenha ouvido falar de Power Rangers, a adaptação ocidental das séries Super Sentai.
Boatos sobre o fim da franquia eram constantes antes do anúncio de cada nova produção em anos recentes. No segundo semestre de 2025, os tais boatos sobre o fim se tornaram realidade. E não tinham nada a ver com Power Rangers. Gozyuger, a série que comemorava os 50 anos de Super Sentai, seria a última produção.


A Toei Company possui um histórico um tanto errático em séries comemorativas. A primeira produção nesse sentido foi Kamen Rider Decade (仮面ライダーディケイド), que comemorou 10 anos dos Heisei Riders em 2009, uma produção amada por alguns e odiada por outros. Kaizoku Sentai Gokaiger (海賊戦隊ゴーカイジャー, 2011), que celebra 35 anos de Super Sentai, é quase uma unanimidade em como fazer uma boa série comemorativa. Já Kamen Rider Zi-O (仮面ライダージオウ, 2018) e Kikai Sentai Zenkaiger (機界戦隊ゼンカイジャー, 2021) despertam mais controvérsias do que contentamento.
Historicamente, Gozyuger não era para ser uma série comemorativa. Desde 2001, com Hyakuju Sentai Gaoranger (獣戦隊ガオレンジャー), a Toei convencionou comemorar o número de séries, não o número de anos da franquia. Em 2001, Himitsu Sentai Gorenger (秘密戦隊ゴレンジャー) completava 26 anos, mas a comemoração era da 25ª série. E assim continuou: Gogo Sentai Boukenger (轟轟戦隊ボウケンジャー, 2006), 30ª; Kaizoku Sentai Gokaiger (2011), 35ª; Doubutsu Sentai Zyuohger (動物戦隊ジュウオウジャー, 2016), 40ª; e Kikai Sentai Zenkaiger (2021), 45ª. Gozyuger é a série 49, então a lógica ditaria que a próxima série comemorativa seria o Sentai de 2026.


Mas a Toei criou um malabarismo, que hoje fica claro o porquê, para encerrar a franquia com uma série comemorativa. Passou a contar Kaitou Sentai Lupinranger (快盗戦隊ルパンレンジャー) e Keisatsu Sentai Patranger (警察戦隊パトレンジャー), ambos da série de 2018, como esquadrões separados, o que tornou Gozyuger o 50º esquadrão, exibido no ano em que Gorenger comemorava 50 anos. Estava armado o cenário para encerrar com chave de ouro a franquia, ainda que o público e os próprios produtores da série não soubessem que seria o fim.
Porém, o que se viu ao longo de 2025 foi uma série de boas ideias, de reviravoltas interessantes, de inovações dentro da própria franquia e alguns personagens carismáticos desperdiçados. O que poderia ser um arco de histórias começava e terminava no mesmo capítulo. Os No-One deixaram de ter relevância e ficaram esquecidos. A própria batalha dos anéis passou um bom período da série relegada a segundo plano. As homenagens às produções anteriores também ficaram de lado. Foi construída a imagem de um grande vilão para o final, mas que, ao surgir, foi derrotado no mesmo episódio.



Da mesma forma, alguns dos protagonistas são pouco aprofundados, enquanto outros recebem arcos merecidos que os fazem evoluir. Vide a história do Byakuya e da Bouquet ao longo da série. O próprio chefão da Toei chegou a admitir em uma entrevista que, quando os vilões são melhores na tela que os heróis, “temos um problema”. Fire Candle e Bouquet são melhores, em todos os aspectos, que qualquer um dos Gozyuger.
O principal problema da série fica claro em uma entrevista que Akiko Inoue, a roteirista-chefe da série, concedeu a um site japonês pouco antes da exibição do último capítulo. Ela afirmou que começou a pensar no que fazer no fim da história após a conclusão do arco com o ator Ryoma Baba (episódio 34). Ela discutiu com os produtores várias opções sobre o vilão final e chegou até a pensar em Saori Ijima, a proprietária do Cafe Half Century, se revelando como a chefe da Calamidade. Ou seja, até o quarto final da história, Akiko não sabia como concluir a série.
Super Sentai, assim como as novelas brasileiras, são obras abertas. Muitas vezes mudam no meio do caminho, a depender da audiência e da opinião do público. Porém, nenhum barco, quando zarpa de um porto, chegará ao destino se não tiver, ao menos, uma rota traçada. Na entrevista, fica muito claro que Akiko Inoue foi pensando no que fazer enquanto estava escrevendo. Qualquer escritor iniciante sabe que isso é a receita para um desastre. Quando se cria uma história e o argumento inicial já está aprovado, você deve, pelo menos, rascunhar os pontos-chave até o final.


Ao longo dos anos, vários roteiristas de Super Sentai, Kamen Rider e Ultraman contaram que ao começar uma série, eles já sabiam exatamente como ela terminaria. Se Akiko Inoue tivesse traçado um destino final para Gozyuger desde o princípio, a série não teria sido uma coleção de ideias desperdiçadas, executadas de forma ruim, apressadas ou confusas. Ainda que muitas dessas ideias sejam boas.
Com certeza o imponderável pesou no final da série. A retirada da atriz Maya Imamori (Gozyu Unicorn) do elenco prejudicou até o último episódio. De acordo com uma entrevista do produtor Daigo Matsuura, é possível supor que a atriz foi desligada da produção durante as gravações dos dois últimos capítulos. Antes ainda da escolha de Kohaku Shida para assumir o papel da Gozyu Unicorn, a opção foi gravar o final ignorando ao máximo a membro de cor preta do Sentai. Fica claro no último episódio como isso prejudicou a história e como os remendos também foram mal pensados e mal executados.
O Super Sentai dos 50 anos, que tem 50 até no nome (Gozyu significa 50), terminou com 49 episódios (!) e não fez uma homenagem final à altura do encerramento de uma franquia de cinco décadas. Talvez isso aconteça no filme contra os Boonboomger. Mas, a verdade, é que Gozyuger terminou com um final amargo. Mesmo que a audiência tenha melhorado e a venda de brinquedos também, a série não faz jus à história da franquia Super Sentai. E o mais triste, é que não faz jus por ser ruim, não faz jus por ter sido mal escrita, mal produzida e mal executada. Todos os elementos para fazer uma série sensacional estava lá.

Nota: 6/10

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