Em um cenário onde muitas homenagens acabam se limitando à nostalgia vazia, O Retorno de Spectreman surgiu como um projeto que transbordava carinho, dedicação e respeito pelo legado de um dos heróis mais cultuados da infância de muitos brasileiros. Idealizada por Alexandro Lima, colaborador do Tokusatsu.com.br, ilustrador, autor de livros infantis, chargista e quadrinista, a HQ nasceu como uma iniciativa totalmente independente e sem fins lucrativos, feita claramente de fã para fã.
Financiada originalmente via Catarse, em tiragem única e numerada para apoiadores, a obra tinha como proposta não apenas revisitar o herói dos anos 1970 exibido no Brasil nos anos 1980, mas entregar uma continuação que muitos imaginaram na infância e nunca tiveram oficialmente. Hoje, sua versão digital pode ser encontrada no portal do apoiador do Tokucast para apoiadores de nosso podcast.
Para quem passou dos 40, Spectreman (スペクトルマン, 1971) dispensa apresentações. Produzida pela P-Productions entre 1971 e 1972, com 63 episódios, a série marcou época com sua mistura de ação, ficção científica, crítica ambiental e um clima sombrio incomum para produções infantis. A luta do androide vindo de Nebula 71 contra o terrível Dr. Gori e Karas conquistou uma legião de fãs no Brasil, especialmente nas exibições da Record e do SBT.


E é justamente esse amor pela série que pulsa em cada página da HQ. Alexandro não tenta reinventar Spectreman, mas respeitar sua essência. A história começa como uma grande carta de amor à infância, resgatando a clássica narração da série, a televisão de tubo, o “Tecnicolor” e toda a atmosfera nostálgica de uma geração. A partir daí, constrói uma continuação moderna, conectando a temática ecológica da série original com um novo desastre ambiental causado por décadas de descaso humano.
O roteiro funciona justamente por entender o personagem. Há referências diretas a episódios clássicos, ao destino de Kenji, ao sacrifício de Dr. Gori e até à clássica dualidade da série entre aventura infantil e mensagem social. Em vez de simplesmente trazer o herói de volta sem contexto, a HQ cria um novo sucessor temporário, um jovem que recebe a missão de continuar esse legado em um dos momentos mais sombrios da humanidade.
Visualmente, a obra é muito competente. Alexandro Lima mostra sua experiência em ilustração e direção de arte em páginas cheias de dinamismo, boas composições e splash pages impactantes. Seu traço mistura referências dos quadrinhos americanos com a estética dos quadrinhos nacionais independentes e, claro, muito da linguagem visual do tokusatsu. As cenas de ação funcionam bem, os monstros têm presença e há um cuidado evidente em recriar poses, golpes e expressões clássicas da série.


Outro ponto que chama atenção é como a paixão do autor pelo gênero parece atravessar gerações. Não é difícil enxergar nesse projeto aquele fã que cresceu assistindo ao herói dourado e decidiu transformar essa paixão em arte, algo que inevitavelmente ecoa para novas gerações, inclusive dentro da própria família. É o tipo de material que carrega alma.
Mesmo não sendo um material oficial, O Retorno de Spectreman entrega algo que muitas obras licenciadas não conseguem: coração. É uma homenagem sincera, respeitosa e divertida, que entende o que fez Spectreman ser tão querido.
No fim, a HQ funciona como continuação, homenagem e declaração de amor ao tokusatsu. Um trabalho que mostra a força dos quadrinhos nacionais independentes e como o fandom brasileiro ainda tem muito a oferecer quando cria com paixão, carinho e respeito. Para quem cresceu ouvindo “Dominantes, às ordens!”, é impossível terminar a leitura sem sorrir.


Mais sobre quadrinhos de Spectreman:
No Brasil, Spectreman também teve uma trajetória interessante nos quadrinhos. A mais conhecida foi a revista publicada pela Editora Bloch entre 1983 e 1986, com cerca de 30 edições, aproveitando a popularidade da série na televisão. Produzida sem licenciamento oficial, a HQ trazia adaptações livres e histórias inéditas, com mudanças visuais no herói e até no alter ego, que passou de Kenji para Kenzo, numa tentativa de evitar problemas com direitos autorais. Décadas depois, o personagem voltou ao Brasil em sua versão oficial com o lançamento do mangá de Spectreman pela Pipoca & Nanquim, publicado a partir de 2021 em quatro volumes, trazendo pela primeira vez no país a versão integral das aventuras oficiais escritas por Souji Ushio e ilustradas por Daiji Kazumine, incluindo histórias adaptadas da série e aventuras inéditas.
Confira nossa review em audio sobre a série em nosso podcast:

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