Muito antes da explosão dos mangás no Brasil e da popularização do termo tokusatsu entre os fãs, um herói nacional já misturava essas duas paixões em páginas impressas. Criado por Franco de Rosa e lançado originalmente em 1982 na revista Robô Gigante, Ultraboy é um daqueles personagens que carregam importância histórica dentro dos quadrinhos brasileiros. Quatro décadas depois, ele retornou em uma edição especial da Editora Tábula que não vive apenas de nostalgia: expande seu universo, moderniza conceitos e reafirma a força criativa do quadrinho nacional.
Publicado originalmente como uma aventura de 20 páginas, Ultraboy foi um dos primeiros mangás produzidos no Brasil, em uma época em que o estilo ainda era visto como nichado e até desacreditado no mercado. Inspirado claramente em ícones japoneses como Ultraman, Spectreman, filmes de kaiju e outros heróis espaciais, Franco de Rosa criou um personagem com identidade própria: brasileiro na essência, japonês na alma e universal no conceito.
Cpm 128 páginas a edição da Tábula funciona quase como um documento histórico e, ao mesmo tempo, como uma revitalização. A primeira história, A Criatura Submarina, vem colorida e imediatamente transporta o leitor para a sensação dos quadrinhos clássicos das décadas de 1970 e 1980 publicados por editoras como Abril e RGE. Há um charme nostálgico nas cores, no papel e na diagramação que remete a uma era em que ler gibi era quase um ritual.
Já as demais histórias seguem majoritariamente em preto e branco, abraçando a estética tradicional dos mangás. Essa escolha funciona muito bem porque cria uma dualidade entre passado e presente: a nostalgia do material clássico e a modernidade da linguagem oriental que hoje domina o mercado.


Franco de Rosa assina os roteiros e participa também da arte em algumas histórias, enquanto um verdadeiro time de talentos nacionais empresta estilos diferentes ao universo do personagem. Nomes como Maurílio DNA, Carlos Gritti, Arthur Garcia, Omar Viñole, Alexandre Nagado, Toninho Lima e Michelle Rezende ajudam a construir uma antologia variada, mas coesa. A capa de Daniel HDR é um espetáculo à parte e vende muito bem a grandiosidade do projeto.
A edição abre com A Criatura Submarina, aventura original de 1982, agora remasterizada e colorida. Aqui vemos a essência pura de Ultraboy: ação direta, monstros gigantes, transformação heroica e aquele clima clássico dos seriados japoneses.
Na sequência, Os Invasores das Estrelas, com arte de Maurílio DNA, amplia a escala da ameaça e já apresenta uma narrativa mais dinâmica e moderna.
Em Ultraverso, o universo iniciado em 2021 se expande de vez. A mitologia desta “Família Ultra” ganha força com personagens como Ultramax, Ultralord e Ultragirl. O conceito de legado, tão presente em franquias japonesas atuais, encaixa perfeitamente aqui.
Ultramax e O Maior Herói do Mundo, desenhadas por Carlos Gritti, aprofundam a linhagem heroica e ajudam a dar mais peso emocional à jornada de Marquito.
Um Passeio Retrô brinca com a nostalgia e homenageia diretamente as raízes do personagem.
Já Goldzulla é praticamente uma carta de amor aos filmes de kaiju. A criatura, claramente inspirada em Godzilla, rende uma das histórias visualmente mais impactantes da coletânea, com arte de Arthur Garcia, finalização de Omar Viñole e textos e layout de Alexandre Nagado.
Encerrando, Gigante, com arte de Toninho Lima, entrega mais ação e reforça o espírito colossal que sempre esteve no DNA do personagem.






Narrativamente, Ultraboy continua sendo um compilado apaixonado de referências da cultura pop oriental e ocidental. Há ecos de Ultraman, de filmes kaiju, de super-heróis americanos, em especial o Superman, de space operas e de mangás clássicos. Ainda assim, a obra não passa a sensação de ser apenas uma cópia ou mistura de ideias. Pelo contrário, ela usa essas inspirações de forma inteligente e as transforma em uma homenagem sincera, criando algo com personalidade própria.
Além das histórias inéditas e da aventura clássica, a edição também funciona como um arquivo histórico do personagem. Entre os extras, há um material editorial escrito por Franco de Rosa que detalha a trajetória de Ultraboy desde sua criação em 1982, quando surgiu na revista Robô Gigante, da Grafipar, sob influência de nomes como Cláudio Seto e Watson Portela, dois pilares do mangá nacional.
O material revela curiosidades como a origem do personagem em 1975, no projeto Kiozin, embrião do que mais tarde se tornaria a história de Marquito, além das lembranças de Franco com a cultura japonesa no Paraná e seu contato com mangás em uma época em que eram raros no Brasil.
Outro destaque é a curiosa história da visita de Osamu Tezuka ao Brasil em 1984. Durante uma exposição no MASP, Tezuka viu páginas de Ultraboy e comentou que mangá não daria certo no Brasil. O tempo provou o contrário. As páginas extras também trazem artes raras, pin-ups, anúncios antigos, rascunhos inéditos e trechos de uma continuação nunca concluída por Watson Portela.
O projeto teve campanha no Catarse, foi lançado na CCXP 2024 e hoje pode ser encontrado na Amazon e em eventos de cultura pop e quadrinhos. Ultraboy não é apenas uma HQ comemorativa, mas a celebração de um pioneiro e a prova de que o herói ainda tem muito futuro.

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