Reviews, Artigos

Review: ‘Ultraman Zero Cosmo Rise’ é mais vitrine de produto que celebração

Publicidade

O especial Ultraman Zero Cosmo Rise: Ergam-se! Heróis da Luz! (ウルトラマンゼロコスモライズ~集え!光の勇者たち~) chega como uma celebração dos 60 anos da franquia e como a primeira grande apresentação da nova forma de Ultraman Zero. Dirigido por Koichi Sakamoto e escrito por Junichiro Ashiki, o projeto reúne Zero, um Absolutian, Ultra Boy, Ultrawoman Grigio e Gavadon em uma aventura que, no papel, tem todos os elementos para funcionar como um grande evento comemorativo. O problema é que o especial parece mais interessado em apresentar um produto do que em contar uma história. A existência do novo Ultrise Eye e dos Ultra Cosmo Records está diretamente ligada à proposta comercial do projeto, permitindo acessar diferentes formas de Zero e invocar poderes de heróis anteriores da franquia. Em um produto voltado ao aniversário de 60 anos, essa função faz sentido, mas, dentro da narrativa, ela é exibida de maneira tão insistente que a aventura frequentemente parece uma demonstração estendida de brinquedo.

Essa percepção não é causada pelo simples fato de existir um novo poder. A venda de brinquedos sempre fez parte da estrutura do tokusatsu, e isso não é um problema por si só. A questão está em como essa função é incorporada ao roteiro. Em Ultraman Teo, por exemplo, os elementos comerciais são integrados à construção dos personagens, aos conflitos e à mitologia. Aqui, o novo poder ocupa tanto espaço que a história parece existir principalmente para conduzir Zero até sua transformação. A aventura envolvendo o Absolutian, Ultra Boy, Grigio e Gavadon é divertida em sua premissa e possui uma leveza agradável nas interações, mas o roteiro trabalha com uma simplicidade excessiva. Os conflitos são introduzidos, desenvolvidos e resolvidos rapidamente, sem que as relações ou os dilemas tenham tempo suficiente para adquirir peso.

Gavadon reforça o lado mais lúdico do especial. Sua presença poderia recuperar uma dimensão afetiva da história de Ultraman, associando o espetáculo a temas como imaginação, amizade e proteção. Contudo, a narrativa passa tão depressa por seus acontecimentos que esses elementos acabam funcionando mais como componentes simpáticos do que como partes realmente desenvolvidas do drama. O mesmo acontece com a proposta de reunir diferentes personagens e gerações: existe potencial para uma celebração mais emocional, mas o roteiro parece mais preocupado em apresentar os elementos que compõem o novo projeto do que em explorar suas relações.

As cenas de ação são o grande destaque técnico. Sob a direção de Koichi Sakamoto, o especial entrega confrontos dinâmicos, com boa movimentação dos personagens, escala e energia visual. A qualidade das lutas não deixa a desejar e demonstra por que Sakamoto continua sendo uma escolha natural para projetos que precisam transmitir a sensação de evento. O problema é que essa excelência torna as fragilidades do roteiro ainda mais visíveis. O espetáculo é grande, mas o impacto dramático nem sempre acompanha essa dimensão.

A nova forma de Zero é apresentada com imponência, mas também com pouca organicidade. O poder chega cercado de mistério, e a explicação de sua origem fica reservada para um possível desenvolvimento futuro. Essa escolha poderia funcionar caso o especial construísse uma pergunta realmente envolvente, mas o resultado é mais próximo de um teaser narrativo. Em vez de concluir uma história e abrir novas possibilidades, o especial parece interromper sua própria trama para prometer o que virá depois. A sensação é de que estamos assistindo a uma grande introdução, e não a uma aventura comemorativa com começo, meio e fim emocionalmente satisfatórios.

É nesse ponto que surge uma espécie de “marvelização” da narrativa. O especial se comporta como um capítulo cuja principal função é preparar o público para outros projetos, novas formas e futuras explicações. O mistério não nasce organicamente do conflito apresentado, mas parece existir para manter uma porta aberta. Isso é especialmente problemático considerando o significado dos 60 anos de Ultraman. Um especial de aniversário deveria celebrar a trajetória da franquia não apenas reunindo personagens e poderes, mas também recuperando aquilo que torna esses heróis importantes. A presença de diferentes gerações poderia resultar em uma reflexão sobre legado, continuidade e a relação entre passado e futuro. Aqui, porém, essa conexão é explorada principalmente como um catálogo de habilidades.

O projeto tinha potencial para ser mais ambicioso. A ideia de Zero acessar a força de heróis históricos, recurso anunciado como uma das principais funções do Ultra Cosmo Record, oferece uma oportunidade natural para discutir o que significa carregar a memória de uma franquia inteira. Mas o especial prefere mostrar o funcionamento do mecanismo em vez de explorar suas implicações emocionais. Ainda assim, não é uma produção desastrosa. A história é objetiva, as cenas de ação são excelentes e os personagens envolvidos garantem um entretenimento imediato. Para quem deseja ver Ultraman Zero em uma nova forma e acompanhar um espetáculo visual bem produzido, o especial entrega o básico com eficiência.

O problema é que, quando observado como narrativa e como celebração histórica, ele deixa a impressão de uma oportunidade desperdiçada. Ultraman Zero Cosmo Rise é um projeto com ideias interessantes, mas preso a escolhas básicas de roteiro. Ele apresenta bem seu novo gimmick, porém não consegue transformá-lo em uma parte organicamente significativa da história. No fim, funciona mais como vitrine de produto e preparação para o futuro do que como um especial capaz de honrar, por si só, seis décadas de Ultraman.

Nota: 6/10

Compartilhe
Publicidade

Mais artigos

Yasuko Kobayashi: de um episódio de ‘Winspector’ a uma carreira em ‘Super Sentai’, ‘Kamen Rider’ e anime

Hideki Tsuji revela paixão por tokusatsu e comenta impacto da IA no Comic Market Brasil

Review: Episódio 47 de ‘Kamen Rider Zeztz’ traz Sieg de volta à luta

Review: Episódio 3 de ‘Omegahorn’ mostra o verdadeiro preço dos ‘Egorgears’

Review: Episódio 6 de ‘Ultraman Teo’ transforma cuidado em responsabilidade

Kenko Festival 2026 reúne cultura geek na Zona Leste de São Paulo