Quando se trata de revistas relacionadas ao gênero tokusatsu, certamente as que vêm à mente dos fãs as icônicas TV Magazine (Terebi Magazine) da Kodansha, a TV Land (Terebi Land) da Tokuma Shoten ou a Televi-kun da Shogakukan, que surgiram na década de 1970 como um produto do chamado Henshin Boom do período, encabeçado pelo sucesso comercial do primeiro Kamen Rider (仮面ライダー ), de 1971, mas que estenderam seu legado para as décadas seguintes.
Entretanto, outra publicação que foi muito importante para impulsionar o tokusatsu nessa época foi a Boken Oh (冒険王, ou “Rei da Aventura”) da Akita Shoten, que, com uma linguagem diferente das demais, aproveitou o momento e se tornou uma das principais expoentes dos mangás derivados de heróis de tokusatsu em seu auge.


Edições da Boken Oh do ínicio dos 1970.
Sua edição de estreia foi em fevereiro de 1949, inicialmente com o título de Shonen Shojo Bokeno (少年少女冒険王), e era voltada, em primeira vista, para o Emonogatari (formato de histórias ilustradas, onde há ilustrações com blocos de texto explicativo), depois voltando-se ao mangá em si. Suas concorrentes neste período eram a Shonen Club e a Shonen Gaho, se estabelecendo na era chamada “era das revistas de mangá do pós-guerra“.
Nas décadas de 1950 e 1960, seu principal foco editorial eram mangás de ficção científica e esportes, com grandes autores tendo publicado trabalhos na revista, como Osamu Tezuka, que publicou títulos como Lost World, Dororo (que foi migrada da Shonen Sunday), Chikyu no Akuma e Majin Garon, além de trabalhos de esporte de autores como Jiro Tsunoda e Ikki Kajiwara e a ficção científica de Shotaro Ishinomori com Cyborg 009 (que era publicado em diversas revistas) e TV Kid.


Edições 10 e 11 da Boken Oh de 1972
Embora ainda no fim dos anos 1960 já tivessem adaptações de produções televisivas de tokusatsu sendo publicadas na Boken Oh, foi a partir de 1971 que, visando se diferenciar das concorrentes e com o encerramento de muitas revistas exclusivas de mangá, além da influência da criação da Terebi Magazine da Kodansha, a Akita Shoten adquiriu os direitos de publicação da versão em mangá da série de TV Spectreman (スペクトルマン, 1971), produzida pela P-Productions, para ser publicada na revista principal e na recém-criada Bessatsu Boken O, uma versão suplementar.
O título, desenhado por Daiji Kazumine, foi um grande impulso para que o periódico se tornasse definitivamente uma revista de televisão infantil. A parceria com a P-Productions, cujo fundador, Souji Ushio, já havia publicado histórias no começo da revista, duraria ao longo dos anos 70, com todas as séries da produtora dali em diante tendo suas versões quadrinizadas publicadas por Kazumine, das quais, dentre outras, incluem Kaiketsu Lion-Maru (快傑ライオン丸, 1972), Tetsujin Tiger Seven (鉄人タイガーセブン, 1973) e Denjin Zaborger (電人ザボーガー, 1975).


Edições 4 e 7 da Boken Oh de 1973
Sabendo ler o momento muito bem, os editores perceberam que os programas de tokusatsu que haviam perdido força estavam voltando à tona na TV, no movimento que doravante seria chamado de segundo Kaijuu Boom ou, mais especificamente, o fenômeno social do Henshin Boom, do qual a Toei Company estava na vanguarda com o lançamento do que doravante se tornaria seu megassucesso Kamen Rider.
Então, a partir de 1972, a versão em mangá intitulada Shin Kamen Rider (新・仮面ライダー), título usado para diferenciar da versão de Shotaro Ishinomori publicada na Shonen Magazine e na Bokura Magazine, passou a ser publicada pelo autor Mitsuru Sugaya, da Ishimori Pro, adaptando episódios da TV, em um momento em que a série de TV estava em seu auge de audiência. Os trabalhos de Rider de Sugaya na Boken O seguiram até 1975, com Kamen Rider Stronger (仮面ライダーストロンガー, 1975).


Edição 8 de 1975 e 9 de 1979 da Boken Oh.
Além dos Riders e das propriedades da P-Productions, uma infinidade de versões em mangá dos sucessos televisivos da época deram as caras por lá, como Super Robot Red Baron (スーパーロボット レッドバロン, 1973), Zone Fighter (流星人間ゾーン, 1973), Rainbowman (愛の戦士レインボーマン, 1972), Henshin Ninja Arashi (変身忍者 嵐, 1972), versão de Ken Ishikawa, que posteriormente publicou Getter Robo G na casa, e até as versões de Devilman, de Mitsuru Hiruta, e Mazinger Z, Great Mazinger e Grendizer, de Gosaku Ota, que eram mais parecidas com as versões de TV.
Ainda nos animes, além do boom dos super robôs, por lá também deram as caras mangás baseados em animações da Tatsunoko, como Casshan, Hurricane Polymar e Tekkaman, e também foi a casa de Patrulha Estelar Yamato, de Leiji Matsumoto.


Frontispício dos mangás de Mitsuru Sugaya.
Além das histórias em quadrinhos, a Boken Oh seguia um formato parecido com o da Terebi Magazine em alguns aspectos, pois também incluía fotos, curiosidades de bastidores e afins das produções de TV. Mas, entre 1978 e 1979, com as vendas em declínio, a Akita Shoten tentou torná-la novamente em um formato de revista regular de mangá, sem ser tão codependente de produtoras de TV.
Apesar dsito, concomitantemente, conseguiu direitos para publicar adaptações de trabalhos do estúdio Sunrise, como Mobile Suit Gundam (機動戦士ガンダム, 1979), mas, com o surgimento da CoroCoro Comic e Comic BonBon, suas vendas foram decaindo até o começo da década de 80 e, embora ainda publicasse materiais de tokusatsu e anime, tentou incrementar seu índice com conteúdo sobre esportistas, celebridades e idols, mas isso não impediu sua derrocada. Em 1983, mudou de nome para TV Anime Magazine, focando seu conteúdo em animações, mas logo foi descontinuada em 1984, encerrando sua história de 35 anos.

A Boken Oh, embora seja praticamente desconhecida nos dias de hoje, foi uma das principais contribuidoras para a revitalização do tokusatsu nos anos 1970 e para a sedimentação do Henshin Boom, já que as histórias de mangás nas revistas eram uma forma de as crianças poderem reviver e estender as aventuras que viam na TV, numa época em que o mangá e as produções de tokusatsu eram intrinsecamente ligadas e corriam juntas.

Você precisa fazer login para comentar.