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‘O Fantástico Jaspion’: o herói que virou sinônimo de tokusatsu no Brasil

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Poucos personagens japoneses conseguiram ultrapassar os limites de sua própria série e se transformar em parte da memória afetiva de um país. No Brasil, Jaspion é um desses casos. Basta ouvir seu nome para muita gente lembrar da armadura metálica, da espada, da moto, do Daileon e daquele período em que os heróis japoneses tomaram conta da televisão.

Produzido pela Toei Company, Kyojuu Tokusou Juspion (巨獣特捜ジャスピオン, Investigador de Monstros Juspion) foi exibido originalmente no Japão entre 15 de março de 1985 e 24 de março de 1986, pela TV Asahi, totalizando 46 episódios. A produção fazia parte do que viria a ser chamado, nos anos 1990, de franquia Metal Hero e tinha Hikaru Kurosaki, um dos principais nomes daquele momento da Japan Action Club (JAC), no papel principal.

Os roteiros ficaram majoritariamente sob responsabilidade de Shozo Uehara, que já havia trabalhado em diversas produções de destaque da Toei, Tsuburaya e outras produtoras ligadas ao gênero. Antes de chegar à sua forma definitiva, o projeto passou por diferentes propostas, sendo uma delas Youjuu Tokusou Deniro, nome inspirado no ator Robert De Niro e que seguia a tradição de batizar heróis da franquia com referências a artistas estrangeiros. A ideia acabou sendo reformulada, com Uehara participando diretamente da construção da nova proposta e chegando ao título Kyojuu Tokusou Juspion. Segundo o produtor Susumu Yoshikawa, Juspion nasceu da combinação de “Justice” e “Champion”, o “Campeão da Justiça”.

A história apresentava uma escala muito maior do que uma simples aventura de herói. Jaspion era um garoto humano encontrado pelo profeta e cientista Edin depois de sobreviver a um acidente espacial que matou seus pais. Criado pelo sábio em um planeta distante, cresceu em contato com a natureza e descobriu que seu destino estava ligado à Bíblia Galáctica, cujas profecias anunciavam Satan Goss, entidade formada pelas energias negativas do universo.

Quando parte para cumprir sua missão, Jaspion recebe de Edin um verdadeiro arsenal. A armadura Metaltex, feita de um metal raríssimo, aumenta sua força e velocidade; a Turbo Magnum é sua pistola laser; e a Spadium Laser é sua principal arma de combate. Ao seu lado estão a androide Anri e a pequena alienígena Miya. Entre seus veículos estão a Allan Moto Space, capaz de voar, o Gaibin, que se divide em tanque e jato, e a nave-mãe Daileon.

É justamente Daileon que transforma a série em espetáculo. A nave assume a forma do Gigante Guerreiro Daileon para enfrentar os monstros gigantes manipulados por Satan Goss. Jaspion mistura aventura espacial, ficção científica, fantasia, artes marciais, monstros gigantes e drama familiar sem perder sua identidade.

No centro da ameaça está Satan Goss, uma presença quase sobrenatural que, durante boa parte da série, funciona mais como uma força maligna do que como um vilão convencional. Seu principal agente na Terra é MacGaren, apresentado como seu filho e transformado no grande rival de Jaspion. Assim, o herói não enfrenta apenas monstros diferentes a cada episódio: existe também um adversário recorrente, capaz de retornar ainda mais poderoso depois de sua primeira derrota.

E se existe um elemento inesquecível para o público brasileiro, são os vilões. Kilza conquistou um lugar especial graças às suas mágicas e ao famoso “Beremekan Katabanda”, seguido do “Kikerá!”. Depois, Kilmaza assume o posto de grande ameaça. Quadridemos, ninjas espaciais, mercenários e monstros gigantes completam um elenco que deu personalidade à produção.

No Japão, Jaspion começou sua trajetória às sextas-feiras, das 19h30 às 20h, mesmo horário ocupado anteriormente pelas séries dos Policiais do Espaço. Entretanto, a produção não alcançou os mesmos índices de audiência de suas antecessoras e acabou passando por uma mudança de rumo. A partir do episódio 35, exibido em janeiro de 1986, a série foi transferida para as segundas-feiras, das 19h às 19h30. A alteração de horário veio acompanhada de mudanças na própria história: a aventura espacial perdeu espaço, enquanto a narrativa passou a se concentrar cada vez mais na Terra, nos conflitos envolvendo MacGaren, Satan Goss e nos personagens recorrentes.

A proposta original, que combinava exploração espacial, ficção científica e monstros gigantes, fazia parte da intenção da Toei e da Bandai de criar uma nova febre de monstros gigantes, semelhante ao sucesso alcançado pela franquia Ultraman no final dos anos 1960. Essa abordagem, porém, foi gradualmente transformada em uma trama mais focada na luta de Jaspion contra as forças de Satan Goss, em uma tentativa de recuperar o interesse do público japonês.

Mas foi no Brasil que Jaspion realmente se transformou em fenômeno. A estreia aconteceu em 22 de fevereiro de 1988, pela Rede Manchete, junto de Esquadrão Relâmpago Changeman (電撃戦隊チェンジマン, 1985), dentro do Clube da Criança. O resultado foi impressionante: a série se tornou um dos maiores sucessos da história da emissora. Mais do que isso, ajudou a abrir caminho para outras produções japonesas e colocou o tokusatsu em posição de destaque no imaginário brasileiro.

Talvez as próprias mudanças de rumo sofridas pela história de Jaspion tenham contribuído para tornar a série tão atraente para o público brasileiro. Diferentemente de produções estruturadas apenas em torno do chamado “monstro da semana”, Jaspion apresentava uma história maior que avançava ao longo dos episódios. Os conflitos com MacGaren, a ameaça de Satan Goss, a busca pelo Pássaro Dourado e outros acontecimentos estavam conectados, criando a sensação de que cada episódio fazia parte de uma aventura muito maior. Para uma geração de espectadores brasileiros, isso ajudou a transformar a série não apenas em uma sucessão de batalhas contra monstros, mas em uma grande saga, na qual os acontecimentos tinham consequências e conduziam a narrativa até seu desfecho.

A dublagem teve papel importante nessa identificação. Na versão brasileira produzida pela Álamo, Jaspion ganhou a voz de Carlos Takeshi. Anri teve as vozes de Denise Simonetto e Cecília Lemes; Edin foi interpretado por Borges de Barros; Boomerman por Carlos Laranjeira; e Satan Goss por Líbero Miguel. A adaptação brasileira ajudou a transformar nomes, golpes e bordões em parte da memória do público.

O fenômeno rapidamente saiu da televisão. Jaspion apareceu em VHS, discos, fitas, quadrinhos, fotonovelas, brinquedos, roupas, máscaras e inúmeros outros produtos. A Glasslite chegou a reaproveitar moldes de outras linhas para atender à enorme demanda. Nas bancas, editoras brasileiras produziram histórias inéditas, algumas continuando a aventura depois da derrota de Satan Goss e promovendo encontros com outros heróis conhecidos do público.

E talvez esse seja o maior legado de Jaspion. Ele não foi simplesmente mais um herói japonês exibido pela televisão. No Brasil, tornou-se uma referência. Mesmo quem não conhece profundamente o gênero tokusatsu provavelmente reconhece sua silhueta.

Jaspion nasceu no Japão, mas encontrou no Brasil uma segunda vida. Entre a Spadium Laser, o Daileon, os monstros gigantes, MacGaren, Kilza e o Pássaro Dourado, ficou registrada uma aventura que atravessou décadas. E quando alguém pergunta qual é a imagem mais imediata que o brasileiro tem de um herói japonês, existe uma grande possibilidade de a resposta continuar sendo a mesma: O Fantástico Jaspion.

O ator que interpretou Jaspion, Hikaru Kurosaki, também acabou se tornando uma figura especial para os brasileiros. Em 2018, um programa de televisão japonês chegou a apresentar o intérprete do herói como a personalidade japonesa mais conhecida no Brasil, uma situação curiosa, mas que demonstra o tamanho que Jaspion alcançou por aqui.

Kurosaki faleceu em 2026, aos 64 anos, deixando para trás uma carreira que começou no universo dos dublês e chegou ao estrelato, e Jaspion fez parte deste período de auge. Depois de abandonar a carreira artística, passou a viver em Okinawa, onde trabalhou como instrutor de mergulho.

Sua partida encerra a trajetória de um homem que, mesmo tendo seguido uma vida distante dos holofotes, permaneceu para todo um país eternamente ligado a um personagem que marcou gerações. Para o Brasil, Hikaru Kurosaki não foi apenas o ator que interpretou Jaspion: ele foi o rosto de um dos maiores heróis japoneses que já passaram por nossa televisão.

Jaspion foi muito além de apenas mais um nome na história da programação infantojuvenil da televisão japonesa. No Brasil, encontrou um público que transformou sua aventura em algo muito maior. O país recebeu Jaspion, seus aliados, seus vilões e sua grande saga, fazendo do personagem uma referência que atravessou gerações e ajudou a definir a relação do público brasileiro com o tokusatsu.

E talvez esse seja o maior legado de Jaspion. A série nasceu no Japão, mudou de rumo durante sua exibição e encontrou no Brasil um Gigante Guerreiro disposto a abraçá-la e transformá-la em parte de sua própria cultura. Décadas depois, Jaspion continua vivo na memória dos brasileiros, não apenas como um herói japonês, mas como um personagem que, de alguma forma, também se tornou brasileiro.

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