Hikaru Kurosaki, eterno intérprete de Jaspion em O Fanástico Jaspion (巨獣特捜ジャスピオン, 1985), faleceu aos 64 anos no início de julho de 2026 (ou no final de junho, a data exata ainda não foi confirmada), encerrando uma das trajetórias mais curiosas e, ao mesmo tempo, mais enigmáticas da história do tokusatsu. Para o público brasileiro, sua morte representou muito mais do que a despedida de um ator. Foi também o fim definitivo da esperança de ver, um dia, o homem que deu vida ao herói japonês mais popular do Brasil visitar o país onde seu personagem se transformou em um fenômeno cultural.
Nascido em Osaka, em 31 de janeiro de 1962, com o nome Seiki Kurosaki, ele entrou para a Japan Action Club (JAC) em 1978, aos 16 anos, inspirado por Sonny Chiba. Seu primeiro trabalho foi como um dos combatentes da série Spider-Man (スパイダーマン, 1978), iniciando uma carreira que rapidamente o levou a atuar em diversas produções da Toei e da televisão japonesa. Participou de séries como Battle Fever J (バトルフィーバーJ, 1979), Denshi Sentai Denziman (電子戦隊デンジマン, 1980) e fez uma participação em Choudenshi Bioman (超電子バイオマン, 1984), produção na qual conheceu a atriz Yuko Asuka, intérprete da vilã Farrah, com quem se casaria alguns anos depois.
Antes mesmo de vestir a roupa de Jaspion, Kurosaki já era visto como um dos grandes astros e apostas da JAC. Protagonizou filmes como Igano Kabamaru (伊賀野カバ丸, 1983) e Kotaro Makaritoru! (コータローまかりとおる!, 1984), sendo frequentemente apontado como um possível sucessor da geração formada por Hiroyuki Sanada, Etsuko Shihomi e o próprio Sonny Chiba. Além de atuar, também gravou músicas para alguns de seus filmes, demonstrando versatilidade artística.


Foi em 1985, porém, que sua carreira ficou marcada para sempre ao interpretar Jaspion. Curiosamente, apesar de realizar praticamente todas as cenas de ação do personagem sem armadura, Kurosaki nunca vestiu o traje metálico do herói. As cenas transformado eram executadas pelos dublês Takanori Shibahara, Kazuyoshi Yamada e Noriaki Kaneda. A clássica pose de transformação de Jaspion, por outro lado, nasceu de uma ideia do próprio ator e acabou incorporada definitivamente à série.
Embora o sucesso de Jaspion no Japão tenha sido apenas satisfatório, a série encontrou no Brasil um fenômeno sem precedentes. Exibida pela extinta Rede Manchete, tornou-se um marco da televisão brasileira e transformou Kurosaki em um ídolo para gerações de fãs, mesmo sem que ele jamais tivesse visitado o país.
Existe, entretanto, um detalhe importante que ajuda a entender parte de sua história. Diferentemente do que muitos imaginam, Jaspion não foi um trabalho contratado diretamente por Hikaru Kurosaki. A produção foi realizada por meio da Japan Action Club (JAC), empresa responsável por fornecer atores e dublês para inúmeras produções da Toei. Naquele sistema, os artistas pertenciam à companhia e não negociavam individualmente seus contratos. Assim, mesmo protagonizando uma série de grande repercussão internacional, isso não significava estabilidade financeira ou autonomia profissional.


Durante o final dos anos 1980, a JAC atravessou um período de profundas transformações. Diversos artistas deixaram a empresa por questões envolvendo remuneração, condições de trabalho, segurança nas filmagens e desejo de seguir outros caminhos profissionais. Em entrevista concedida ao antigo site da revista Herói, por volta de 2001, Kurosaki afirmou que decidiu abandonar a carreira artística após desentendimentos com Sonny Chiba.
Naquele período, segundo relatos publicados ao longo dos anos, Kurosaki enfrentava dificuldades financeiras e recusou participar de apresentações em parques temáticos por considerar inadequadas as condições de segurança oferecidas aos artistas. Um dos fatores que teria pesado nessa decisão foi o grave acidente sofrido por seu amigo Masato Akada, conhecido pelos trabalhos como Yellow Mask em Defensores da Luz Maskman (光戦隊マスクマン, 1987) e Yellow Lion em Choujuu Sentai Liveman (超獣戦隊ライブマン, 1988), durante uma produção.
Ao longo dos anos também circularam rumores de que, após mudanças administrativas na JAC, pessoas ligadas pouco preocupadas com segurança teriam participado da gestão da empresa. Nunca houve confirmação pública dessas histórias, mas elas fizeram parte das discussões entre fãs e ex-integrantes da companhia durante décadas. Também existem relatos de que Kurosaki teria participado de movimentos internos cobrando melhores condições de segurança para os dublês, o que teria agravado seu desgaste dentro da empresa.


Outro episódio que ajuda a contextualizar aquele momento foi revelado pelo ator Hiroyuki Sanada em entrevista publicada pelo portal Kobunsha após a morte de Sonny Chiba, em 2021. Sanada afirmou que rompeu relações com seu antigo mentor devido a conflitos envolvendo dinheiro e remuneração, apesar de ser um dos maiores nomes da JAC. Segundo ele, mesmo sendo protagonista de filmes, séries, comerciais e discos, recebia praticamente o mesmo salário dos demais artistas. Desde então, os dois nunca mais voltaram a se falar. O relato demonstra que as tensões envolvendo Sonny Chiba e antigos integrantes da JAC iam muito além do caso de Hikaru Kurosaki.
Mesmo tentando dar continuidade à carreira no início dos anos 1990, Kurosaki passou a conseguir cada vez menos trabalhos. A dificuldade para se recolocar artisticamente acabou refletindo também em sua vida profissional fora da televisão. Diante desse cenário, decidiu encerrar definitivamente a carreira de ator e se mudou para Motobu, na província de Okinawa, onde fundou ao lado da esposa a escola de mergulho Mother Earth. A partir dali passou a viver completamente afastado dos holofotes, dedicando-se exclusivamente ao mergulho e recusando praticamente qualquer atividade relacionada ao seu passado artístico.
O isolamento de Kurosaki foi tão profundo que até mesmo antigos colegas da Japan Action Club raramente comentavam sobre ele. Um exemplo é Hiroshi Watari, que esteve diversas vezes no Brasil e, mesmo frequentemente questionado pelos fãs, quase nunca falava sobre o antigo companheiro de JAC. Essa postura reforça a impressão de que o afastamento de Kurosaki do meio artístico foi respeitado por aqueles que conviveram com ele, preservando uma decisão pessoal que permaneceu praticamente inalterada até o fim de sua vida. Também é possível que esse silêncio estivesse relacionado aos desentendimentos ocorridos dentro da JAC no início dos anos 1990 e, eventualmente, ao desejo de preservar a imagem de Sonny Chiba e de pessoas envolvidas naquele período. Como grande parte dessa história nunca foi esclarecida publicamente pelos seus protagonistas, qualquer conclusão além disso permanece no campo das hipóteses.


Foi justamente esse isolamento que deu origem a inúmeras histórias entre os fãs brasileiros. Desde o início dos anos 2000, multiplicaram-se relatos de que Hikaru Kurosaki recusava visitas, expulsava brasileiros ou simplesmente odiava falar sobre Jaspion. Nenhuma dessas versões jamais pôde ser comprovada. O que diversas pessoas relataram ao longo dos anos foi um comportamento variável. Em alguns encontros, Kurosaki demonstrava simpatia, conversava sobre diversos assuntos e recebia visitantes com cordialidade. Em outros, preferia encerrar rapidamente a conversa. Em praticamente todos os casos, fazia apenas um pedido: que sua vida particular permanecesse privada.
O que poucos sabiam é que Hikaru Kurosaki tinha plena consciência da enorme popularidade de Jaspion no Brasil. Muito antes da atual organização do Anime Friends, já existiam tentativas de convencê-lo a visitar o país. A Jungle Anime Store, em parceria com a empresa que fazia o Anime Friends na época e o Tokusatsu.com.br, estudou essa possibilidade por volta de 2015 e chegou a visita-lo, embora quem tenha acabado vindo ao Brasil naquele período tenha sido Tetsuo Kurata. Desde então, novas tentativas continuaram acontecendo.
Durante o Anime Friends 2026, Diego Ragonha, diretor da Maru Division, revelou que passou oito anos tentando convencer Kurosaki a aceitar um convite para participar do evento. Para conseguir conhecê-lo, precisou marcar uma aula de mergulho em Okinawa. Somente após a atividade revelou que, na verdade, estava ali porque era brasileiro e queria convidá-lo ao Anime Friends.


Segundo Diego, Kurosaki reagiu de forma completamente diferente daquela retratada em muitas histórias espalhadas pela internet. Os dois almoçaram juntos, jantaram, conversaram diversas vezes ao longo dos anos e construíram uma relação de amizade. Ainda assim, a resposta era sempre a mesma: ele não queria voltar a ser artista e preferia manter distância de tudo o que lembrasse sua antiga carreira.
Na última visita, realizada em março de 2026, Diego encontrou um Kurosaki bastante debilitado. Segundo o relato, o ex-ator contou que havia parado de fumar e beber, enfrentava problemas de saúde e precisaria passar por uma cirurgia na coluna. Pela primeira vez, entretanto, deixou aberta a possibilidade de pensar no convite para visitar o Brasil no futuro. Poucos meses depois, veio a notícia de sua morte.
Talvez nunca seja possível saber exatamente quais acontecimentos levaram Hikaru Kurosaki a abandonar completamente o mundo artístico. Os desentendimentos com Sonny Chiba, o funcionamento da JAC, as dificuldades financeiras, a perda da esposa e sua busca por uma vida tranquila em Okinawa certamente fazem parte dessa história. O restante permanece apenas no campo das hipóteses.


Infelizmente, ao longo dos anos, muitos fãs preferiram acreditar em teorias da conspiração e espalhar acusações sem qualquer comprovação, chegando inclusive a responsabilizar pessoas por acontecimentos que nunca foram demonstrados. A história de Hikaru Kurosaki mostra justamente a importância de separar fatos de especulações. Quem sabe agora, com o passar do tempo, informações corretas sobre toda essa história finalmente comecem a surgir.
O homem escolheu viver longe dos holofotes, em uma das regiões mais isoladas do Japão, onde encontrou a tranquilidade que buscava ao lado de sua esposa e de seus amados cães. Mas, mesmo distante dos palcos e das câmeras, jamais deixou de ser lembrado por milhões de brasileiros. Afinal, para o público que cresceu acompanhando suas aventuras, Hikaru Kurosaki pode ter escolhido o anonimato, mas Jaspion permanecerá eterno.
Você pode não gostar de Jaspion. Pode até considerar que as inúmeras tentativas de fãs brasileiros de conhecê-lo pessoalmente ou trazê-lo ao Brasil foram excessivas. Mas não há como negar sua importância para o gênero no país, nem o impacto que sua imagem, seu trabalho e seu personagem representam para a cultura pop brasileira. Independentemente da opinião de cada um, Jaspion marcou gerações e se tornou um dos maiores símbolos da relação entre o Brasil e o Japão.
Confira nossas resenhas em áudio sobre alguns trabalhos de Kurosaki:

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