O presidente e CEO da Toei Company, Fumio Yoshimura, foi entrevistado pelo site estadunidense Deadline sobre os ambiciosos planos de crescimento e expansão global do estúdio japonês. A companhia produz conteúdo de cinema e TV há mais de 70 anos e possui uma biblioteca de 4,4 mil filmes, 39 mil episódios de produções de TV e mais de 600 episódios feitos para o streaming.
A Toei Company também é acionista majoritária da Toei Animation, que produz franquias de anime de sucesso como Dragon Ball, One Piece, Os Cavaleiros do Zodíaco e Sailor Moon. Agora, o estúdio está de olho no exterior, com uma lista de projetos voltados para mercados internacionais. A Toei também planeja aumentar as vendas de seu conteúdo existente para ampliar a receita internacional de 30% para 50% até 2033. Além disso, pretende atualizar suas instalações de estúdio e laboratórios de pós-produção em Tóquio e Quioto; e trabalhar em co-produções com a China.

Yoshimura, que está no estúdio há 37 anos e foi nomeado presidente e CEO em 2023, relatou à Deadline que no passado o Japão tinha uma grande população para consumir conteúdo e por isso a empresa não via necessidade de ir para o exterior. “Agora, nossa população está em declínio, uma tendência que provavelmente não será revertida, então agora é a hora de criarmos novas estratégias”, comentou.
Os mercados da América do Norte e da Ásia são a primeira prioridade para a Toei. “A Ásia representa mais da metade da população mundial, os conteúdos locais estão crescendo em quase todos os mercados asiáticos, e a região está mais próxima culturalmente de nós, por isso é um lugar óbvio para começar. Mas a América do Norte também é um mercado enorme, então é claro que gostaríamos de estar lá também. Gostaríamos de trabalhar em parcerias e afiliações, tentando preencher a lacuna que temos atualmente”, disse Yoshimura.
O CEO contou que a Toei já procura parceiros para coproduzir conteúdos que funcionem no mercado estadunidense. Foram destinados US$ 2 bilhões (mais de 11 bilhões de reais) para a expansão. Desse valor, US$ 1,6 bilhão (mais de 9 bilhões de reais) para conteúdo e US$ 400 milhões (mais de 2 bilhões de reais) para fortalecer as operações comerciais.
Embora detalhes ainda não tenham sido anunciados, a lista internacional inclui uma série histórica de grande orçamento baseada no período da história japonesa que deu origem à classe dos samurais. O estúdio também está trabalhando em um filme ambientado em Nova York, que está sendo configurado como uma coprodução entre os EUA, Japão e Taiwan, bem como uma rara coprodução entre o Japão e a África. Também em andamento está um super-herói desenvolvido para os mercados internacionais.
“Também queremos ver como podemos expandir nossas franquias de tokusatsu existentes – Kamen Rider, Super Sentai e Power Rangers – isso sempre foi o forte da Toei e esperamos expandir essas propriedades”, disse Yoshimura. No Japão, a empresa ainda possui cadeias de salas de cinema e uma receita significativa de DVDs e Blu-ray. As bilheterias do Japão tiveram uma recuperação relativamente saudável desde a pandemia, mas o CEO reconhece que o mercado japonês já não cresce mais como antes. Por isso, ele quer passar a mensagem para Hollywood de que a indústria de entretenimento notoriamente conservadora e avessa ao risco do Japão está aberta a mudanças.
A maior parte do conteúdo no Japão é financiada através do sistema “comitê de produção” (seisaku iinkai), segundo o qual um consórcio de até uma dúzia de estúdios locais, emissoras, empresas de vídeo e agências de publicidade dividem os custos de um projeto em troca de uma proporção definida de retornos. No passado, isso dificultou a participação das empresas estrangeiras. “O sistema de comitês de produção é uma maneira muito única de fazer negócios no Japão, mas não achamos que seja adequado para mercados estrangeiros. Estamos olhando para estruturas de financiamento muito mais simples, como uma parceria de 50:50 com nossos parceiros estrangeiros”, explicou.
A Toei vê a introdução do governo japonês de um desconto de 50% na produção de cinema e TV, que está começando a trazer um maior volume de projetos internacionais para filmar no Japão, como um grande atrativo. A empresa também está de olho no sucesso internacional de conteúdos com temática japonesa, incluindo a franquia Monsterverse da Warner Bros/Legendary, que revigorou o personagem Godzilla de Toho. Até agora, a Toei trabalhou principalmente com o Prime Video, que entre outros conteúdos lançou as séries de tokusatsu Kamen Rider Amazons e Kamen Rider Black Sun.
Embora a maioria dos conteúdos japoneses seja baseada em mangás e animes, uma das razões pelas quais o mercado é considerado avesso ao risco, Yoshimura diz que a série Xógum: A Gloriosa Saga do Japão foi um divisor de águas. Entretanto, o estúdio está tomando cuidado quando se trata de remakes, já que várias adaptações live-action de animações de sucesso naufragaram nas bilheterias internacionais no passado. Os remakes no streaming têm sido mais bem sucedidos, incluindo a versão live-action da Netflix de One Piece.
A entrevista ao Deadline também revelou que a Toei e a Saban não estão envolvidas no remake de Power Rangers, atualmente em andamento no Disney +, já que a Hasbro adquiriu os direitos internacionais, excluindo a Ásia, para a franquia em 2018. No entanto, a Toei tem uma experiente equipe internacional de produção e licenciamento em mãos para ajudar os potenciais parceiros a navegar nesse oceano complexo. No resto da Ásia, a Toei já tem colaborado com empresas locais, coproduzindo séries como o live-action Voltes V Legacy com o canal GMA das Filipinas.
“O próximo passo é trabalhar com os produtores chineses para criar conteúdos locais, que serão considerados como conteúdo chinês, em vez de conteúdo japonês importado”, explica Yoshimura. “As capacidades de produção estão melhorando rapidamente na China e a Toei quer coproduzir tanto animação quanto live-action com parceiros chineses.”
Também serão feitas atualizações tecnológicas nos estúdios da Toei e em várias instalações de pós-produção em Tóquio e Quioto. A empresa espera mais filmagens internacionais no Japão e, para atender à demanda, o estúdio abriu um estágio de produção virtual de 270 graus em Tóquio e está investindo na renovação de seus estúdios, além de melhorar seus recursos visuais, IA, humanos digitais e outras capacidades tecnológicas. “Desde a série Xógum, fomos contatados por várias empresas interessadas em criar um filme ou conteúdo de samurais, e eles querem filmar em Quioto. Por isso, prevemos um crescimento significativo”, finaliza Yoshimura.
Fonte: Dead Line