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‘Ultraman’ 60 anos: Por que a palavra tokusatsu surge em 1954, mas só se torna um gênero em 1966?

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A história da palavra tokusatsu costuma gerar uma confusão bastante comum. Muitos afirmam que o gênero nasceu em 1954 com Godzilla, enquanto outros defendem que ele surgiu apenas em 1966 com Ultraman. Na realidade, as duas afirmações podem ser consideradas corretas, desde que se compreenda que a palavra passou por uma mudança de significado ao longo do tempo.

O termo tokusatsu (特撮) é uma abreviação de tokushu kouka satsuei, expressão que significa “filmagem especial” ou “fotografia especial”. Originalmente, não designava um tipo de filme ou série, mas sim o conjunto de técnicas de efeitos especiais utilizadas para criar imagens impossíveis de serem registradas de forma convencional, como miniaturas, composições ópticas, explosões, cabos, fantasias de monstros e maquiagem. Em outras palavras, tokusatsu é o equivalente japonês ao que hoje conhecemos como special sffects (SFX), ou efeitos especiais.

O grande crescimento dos efeitos especiais após a Segunda Guerra Mundial foi resultado da combinação entre os avanços tecnológicos impulsionados pelo conflito e a enorme popularidade da ficção científica nas décadas de 1950 e 1960. Durante a guerra, o desenvolvimento de câmeras, lentes, processos ópticos, miniaturas e novos materiais proporcionou técnicas mais sofisticadas para o cinema, enquanto o contexto da Guerra Fria, da era nuclear e da corrida espacial despertou no público um fascínio por histórias sobre monstros gigantes, invasões alienígenas, robôs, viagens espaciais e catástrofes. Ao mesmo tempo, a popularização da televisão levou os estúdios a investir em produções cada vez mais espetaculares para atrair espectadores às salas de cinema. No Japão, esse cenário se uniu ao impacto causado pelas bombas atômicas e ao talento de técnicos como Eiji Tsuburaya, que aperfeiçoaram o uso de miniaturas, fotografia óptica e efeitos mecânicos, culminando no sucesso de Godzilla (ゴジラ, 1954) e na consolidação do país como uma referência mundial em efeitos especiais.

Embora o surgimento da palavra tokusatsu esteja conectada a Godzilla, pesquisas apontam que o termo só passou a ser utilizado pela imprensa japonesa por volta de 1958 como uma forma mais simples de explicar ao público o conceito de efeitos especiais. Antes disso, era comum o uso da expressão tokushu gijutsu (特殊技術) ou sua abreviação, tokugi, que sginfica “técnica especial”.

Nos créditos dos filmes da Toho desse período, Eiji Tsuburaya era identificado como Tokushu Gijutsu (特殊技術) e, posteriormente, como Tokugi Kantoku (特技監督), cargo equivalente ao diretor de efeitos especiais. Curiosamente, quando fundou sua empresa em 1963, Tsuburaya chegou a considerar o nome Tokugi Productions, em referência à terminologia utilizada na época. A ideia acabou sendo abandonada em favor de Tsuburaya Productions, nome pelo qual o estúdio se tornaria mundialmente conhecido.

Durante toda a década de 1950 e o início dos anos 1960, ninguém dizia que iria assistir a um tokusatsu. As produções eram classificadas como filmes de monstros (kaiju eiga), ficção científica, fantasia, aventura ou seriados de heróis. Todas podiam utilizar técnicas de tokushu kouka satsuei, mas continuavam pertencendo aos seus respectivos gêneros. A situação era semelhante ao uso atual da computação gráfica. Um filme pode utilizar CGI em praticamente todas as cenas, mas isso não faz do CGI um gênero.

Essa percepção mudou completamente em 1966 com a estreia de Ultraman. Produzida pela Tsuburaya Productions, a série foi apresentada como parte da Kuusou Tokusatsu Series (空想特撮シリーズ), ou “Série de Fantasia e Efeitos Especiais”. Pela primeira vez, a palavra tokusatsu aparecia como parte do título de uma produção televisiva. O enorme sucesso da série, aliado ao chamado Primeiro Kaiju Boom, fez com que o público passasse a associar aquele tipo de programa, marcado pelo uso intensivo de efeitos especiais, à própria palavra tokusatsu.

Foi nesse momento que ocorreu a mudança de significado. O termo deixou de representar apenas uma técnica cinematográfica e passou a identificar um gênero audiovisual reconhecido pelo público. Com isso, produções como Captain Ultra (キャプテンウルトラ, 1967), Mirrorman (ミラーマン, 1971), Spectreman (スペクトルマン, 1971), Kamen Rider (仮面ライダー, 1971) e outras produções, passaram a ser naturalmente compreendidas como tokusatsu. Da mesma forma, obras produzidas antes de 1966, como Godzilla (1954), Rodan (ラドン, 1956), Os Bárbaros Invadem a Terra (地球防衛軍, 1957), Gekko Kamen (月光仮面, 1959), National Kid (ナショナルキッド, 1960) e outras obras anteriores, passaram a ser incorporadas retrospectivamente ao gênero, embora originalmente fossem classificadas apenas como filmes de monstros, ficção científica ou seriados de aventura.

Outro ponto que costuma gerar confusão é que, ainda hoje, a palavra tokusatsu possui dois significados no Japão. Dependendo do contexto, ela pode simplesmente indicar que uma obra utiliza efeitos especiais, preservando seu sentido técnico original. Porém, quando empregada para designar um gênero, existe uma compreensão bastante clara sobre quais produções fazem parte dessa categoria. Para evitar ambiguidades, os japoneses também utilizam expressões como tokusatsu hero (特撮ヒーロー), quando se referem especificamente às séries de heróis, e tokusatsu bangumi (特撮番組), ou “programas de tokusatsu“, para falar das produções televisivas desse gênero.

Essa diferença de entendimento ajuda a explicar outra característica importante. No Ocidente, especialmente entre os fãs, é comum que o termo tokusatsu seja tratado como sinônimo de “séries japonesas de heróis”, chegando ao ponto de algumas pessoas não considerarem Godzilla e outras obras como parte do gênero. No Japão, porém, essa distinção praticamente não existe. Godzilla, Ultraman, Kamen Rider, Super Sentai e diversas outras produções são todas reconhecidas como tokusatsu.

Da mesma forma, também é um equívoco imaginar que apenas filmes de monstros gigantes ou séries de super-heróis possam ser classificados como tokusatsu. No Japão, existem inúmeras produções sem heróis mascarados ou kaijus que são tradicionalmente reconhecidas como tokusatsu, e o Tokusatsu.com.br vem, há anos, apresentando muitas delas aos fãs brasileiros. O mesmo acontece com diversas séries de ficção científica, fantasia, dramas policiais, produções voltadas ao público jovem, obras com temática esportiva e adaptações de mangás que fazem uso intensivo de efeitos especiais, características que definem o gênero.

Em resumo, no Japão, tokusatsu nasceu como um termo técnico relacionado às técnicas de efeitos especiais e, a partir de 1966, também passou a ser reconhecido como um gênero audiovisual. No entanto, esse gênero nunca esteve restrito aos heróis ou aos monstros gigantes, abrangendo toda a produção japonesa em live-action cuja identidade esteja ligada ao uso expressivo dos efeitos especiais. Essa compreensão é significativamente mais ampla do que a definição adotada pela maior parte dos fãs ocidentais e ajuda a explicar por que obras tão diferentes convivem naturalmente sob a mesma denominação no Japão.

No dia desta publicação, comemoramos os 60 anos de Ultraman, cuja estreia aconteceu em 17 de julho de 1966, mas também podemos celebrar os 60 anos do gênero tokusatsu. Embora a data mais difundida para essa celebração seja 3 de novembro, em referência à estreia de Godzilla nos cinemas, em 1954, e ao surgimento do termo tokusatsu, foi com Ultraman que essa denominação passou a representar um gênero próprio, consolidando a identidade pela qual é reconhecida até hoje.


Um vídeo interessante para ser consumido para quem se interessa peo assunto é do youtuber japones Yuki Takasaka, após sua participação no Anime Friends 2018:

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