O episódio 23 de Kamen Rider Zeztz não pede licença. Ele atravessa a tela como um soco seco e, diferente de outras vezes, o impacto não vem apenas da ação ou do peso das escolhas. A sensação é de que, desta vez, algo se rompeu de vez e foi definitivo. E não estou falando de personagens que morreram, mas sim da jornada do herói, que desta vez flerta com o “lado sombrio da força” e se mostra pronto para uma grande mudança.
A luta entre Baku e Nox é brutal. A forma Catastrom não aparece como um descontrole irracional, mas como uma decisão consciente. É poder direcionado. É destruição escolhida. O golpe final arranca Nox da transformação e o joga ao chão, derrotado. Antes de cair, ele deixa uma reflexão amarga. Aqueles que se transformam abandonam a humanidade. Estão condenados a sonhar apenas pesadelos.
A vitória não traz alívio, pelo contrário, ela sufoca.


A sequência no mundo dos sonhos é ainda mais forte. Diante dos escombros, ele admite que foi ingênuo. Diz que deveria ter eliminado Nox antes. Nem faz a pergunta que corta o discurso pela raiz. Se ele acredita nisso, por que está chorando, um conflito interno muito bem interpretado e filmado. É nesse momento que a série deixa claro que o verdadeiro inimigo está dentro dele.
A revelação de que seu inconsciente carrega um impulso destrutivo muda a leitura de toda a temporada até aqui. A má sorte constante, o sofrimento sempre que tenta ajudar alguém, tudo passa a fazer sentido sob essa nova ótica. Kamen Rider Zeztz transforma um traço quase cômico do personagem em tragédia psicológica.
Quando Baku decide destruir o próprio mundo dos sonhos para acordar, a cena é impactante. Ele escolhe o colapso total. Usa Catastrom para despedaçar aquela realidade e forçar o despertar de Nem. É um ato extremo, quase sacrificial. Ao acordar, ele já não é o mesmo, e talvez nem o próprio espectado, independente de sua idade, da série seja mais a partir deste momento.


Ele rejeita o nome Baku Yorozu. Assume friamente sua identidade como Agente 7. A mudança não é apenas estética. É comportamental. O tom de voz é outro. O olhar é distante, não se trata do Agente 7 idealizado nos sonhos, mas sim de uma terceira personalidade de Baku. A compaixão parece ter sido arquivada junto com sua vida civil. A construção desse agente infalível e frio funciona muito bem. A inspiração em James Bond é evidente. O 007 que cumpre a missão acima de tudo, que aceita perdas como parte do jogo. O arco transforma o protagonista em algo mais calculado, mais estratégico, mais perigoso.
Paralelamente, a revelação de que C.O.D.E. significa Confidential Organized Defense Establishment (Organização Confidencial de Defesa Organizada) amplia o escopo da narrativa. Não se trata apenas de uma organização secreta qualquer. É uma engrenagem global que aceita a morte de seus próprios agentes como preço necessário. A frieza institucional contrasta com o abalo emocional que vemos em Nasuka e Fujimi. O mundo da série está colidindo em tempo real.


E então há o encontro final entre Nem e Lady. O simples “mãe” muda tudo. A temporada abre uma nova camada emocional ao sugerir que por trás dos pesadelos existe também uma história familiar mal resolvida.
Sobre as mortes, aqui fica o ponto mais delicado. Enquanto as baixas eram apenas dos Agentes 5 e 6, eu conseguia comprar a ideia de que a série estava disposta a cruzar certas linhas. Era ousado, mas plausível. Com a queda de Nox, a dúvida cresce. Será mesmo o fim para esses personagens. Sinceramente, não creio que o roteiro e a própria Toei sejam tão corajosos assim, e mesmo de forma muito melhor escrita, dirigida e atuada, ainda se trata do formato base usado desde a retomada com Kamen Rider Kuuga, como formas sem controle e brutais e o protagonista flertando com um lado mais sombrio.
Ainda assim, o impacto imediato funciona. O episódio pesa. Ele quebra o protagonista, redefine sua postura e transforma a narrativa em algo mais sombrio. Kamen Rider Zeztz deixa de ser apenas uma história de missões contra pesadelos.
E, no centro disso tudo, nasce um novo Agente 7. Frio. Preciso. E perigosamente convencido de que destruir pode ser a única forma de proteger.
Nota: 9/10

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