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Review: ‘Kokuho – O Preço da Perfeição’, uma peça de Kabuki em formato de longa-metragem

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Um filme sobre o teatro Kabuki que incorpora peças teatrais em sua narrativa proporciona ao espectador que nunca assistiu a uma apresentação desse estilo a oportunidade única de conhecer uma das maiores e mais tradicionais formas de arte do Japão, a qual possui elementos próximos do tokusatsu.

Antes de adentrar a história do filme, seria importante introduzir dois pontos neste texto: o teatro Kabuki, o universo retratado no filme e tema principal desta análise, e sua aproximação com o tokusatsu.

O teatro Kabuki é uma forma de teatro popular e tradicional japonesa, originária do período Edo. Ele se baseia em narrativas dramatizadas, contando histórias de diversos personagens mitológicos e/ou personalidades famosas e heróis de guerra do Japão feudal. Caracteriza-se por performances visualmente ricas e complexas, que combinam música, dança, mímica, cenários e figurinos estilizados. A maquiagem facial chamada kumadori é uma de suas marcas registradas, utilizada para expressar as emoções dos personagens.

A palavra Kabuki, derivada do verbo kabuku, carrega um sentido de “transgressão” por se tratar, em sua origem, de um teatro de “vanguarda”. Era um teatro popular, voltado para as classes que não faziam parte da elite, sendo mais provocativo e, por muitas vezes, satírico. Com o tempo, a palavra Kabuki adquiriu outro sentido. Os ideogramas que formam seu nome significam, respectivamente, canto (ka – 歌), dança (bu – 舞) e habilidade (ki – 伎), passando a ideia de que o Kabuki é “a arte de cantar e dançar”.

A partir daqui, já é possível inferir várias aproximações do teatro Kabuki com o tokusatsu, não só por contar histórias de guerreiros heróis, mas também por sua dramatização dos acontecimentos durante a trama narrativa, por seus personagens moralmente ambíguos e por sua diegese ser guiada por uma trilha sonora. Isso denota um grande trabalho do som não só como ambiente, mas também como se ele se tornasse um personagem da narrativa. Aproximando o Kabuki do melodrama na abordagem de aspectos do subgênero narrativo, que também são trabalhados no tokusatsu.

Ainda pode-se tecer que o teatro Kabuki se originou de uma vertente do teatro tradicional japonês, assim como o teatro de bonecos Bunraku. Ambos utilizam fortemente a cenografia de palco para provocar emoções no público, assemelhando-se à utilização dos efeitos práticos no tokusatsu.

O teatro Kabuki sofreu diversas mudanças ao longo do tempo, muitas ocasionadas pelo controle do xogunato no período Edo. O Kabuki era visto como uma forma de prostituição, grande parte devido às gueixas atuarem como personagens femininas. Em decorrência da proibição de mulheres praticarem essa arte, em 1629 surgiram os onnagatas: homens que interpretavam papéis femininos dentro do Kabuki. Eles se vestiam com roupas femininas e precisavam aprender técnicas de atuação específicas, com movimentos mais suaves a fim de expressar a feminilidade das personagens.

É aí que entra o protagonista do filme. Kokuho – O Preço da Perfeição narra a história de Kikuo Tachibana (Ryo Yoshizawa), um filho da yakuza que, ao perder os pais ainda adolescente, é adotado pelo amigo de seu pai, um mestre na arte do teatro Kabuki: Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe). Assim, ele passa a treinar e se aperfeiçoar na atuação do Kabuki, tornando-se um onnagata ao lado do jovem Shunsuke Ogaki (Ryusei Yokohama), filho de Hanai.

No decorrer do filme, vemos a vida e a relação de Kikuo com esse novo parceiro no Kabuki, e com a família de Hanai. Aos poucos, junto com Kikuo, vamos compreendendo que, por mais que ele seja considerado quase um filho por Hanai, ele nunca terá de fato o nome Hanjiro, um nome de peso no cenário do Teatro Kabuki daquela época.

Kikuo busca o sucesso durante o filme inteiro para preencher um vazio existencial. Isso se deve, em parte, por ter sido órfão muito jovem; em parte, por ser considerado uma fraude dentro do teatro Kabuki, já que não é de uma família tradicional na arte; e por ele tentar a todo custo provar seu valor. Vemos que há também uma pressão por Kikuo ser muito talentoso desde cedo. Ao longo da narrativa, a pressão e a busca por uma perfeição que não existe o consomem completamente e, assim como na fala de um personagem no começo, Kikuo se deixa devorar por seu rosto bonito.

Nessa jornada pela perfeição, é possível se ver bem claramente a saga do herói, aqui, moralmente ambíguo. Testemunha-se a sua constante provação suprema desde a infância traumática; sua ascensão como herdeiro da casa Hanjiro, depois que Shunsuke abandona a família; sua queda, quando é consumido pela ambição e rompe todos os vínculos num ato desesperado; e o caminho de volta para casa, para o reencontro com seu irmão Shunsuke, para o reencontro consigo mesmo e para o ápice de sua evolução profissional, quando ele atinge o topo, conhecido como Kokuho.

Pode-se dizer que Kokuho é uma peça de Kabuki em formato de longa-metragem, pois o filme é dividido em alguns atos, marcados pela música, como numa peça de Kabuki. Esse elemento aparece no filme na forma de marcadores temporais, mostrando o ano em que cada acontecimento da trama ocorre. Cada espaço diegético da narrativa é finalizado com uma peça específica de Kabuki, para então marcar uma nova passagem de tempo. O interessante de notar é que cada peça de Kabuki colocada em determinado momento na narrativa não está ali por acaso ou apenas como organização temporal; ela expressa as emoções vividas pelos personagens naqueles momentos diegéticos.

O Kabuki apresentado dentro da narrativa do filme possui a função de transmitir as emoções dos personagens para os espectadores, assim como o Kabuki originalmente e, dessa forma, ajuda a contar e desenvolver o storytelling do filme do mesmo modo que o Kabuki conta suas histórias: com tons melodramáticos, recursos sonoros e a expressividade apresentada através dos rostos pintados.

Nessa perspectiva de ver o filme com um olhar para uma peça de teatro Kabuki, pode-se comparar a sua duração de quase 3h já que uma peça de Kabuki geralmente é longa. Apesar de um tempo maior do que a maioria dos longas-metragens lançados atualmente e com sua narrativa densa e dramática, Kokuho não se mostra nem um pouco cansativo ou arrastado, ao contrário, o filme traz um fôlego novo toda vez que são exibidas as passagens de tempo durante a vida do protagonista.

A ruptura brusca de um momento na narrativa para a mudança de cada ato dá ao espectador a sensação de que há mais por vir, instigando, plantando a dúvida do que gerou a partir daquele momento que o roteiro do filme escolheu não mostrar. O roteiro escolhe sabiamente exibir o que há a seguir, os efeitos a longo prazo daquela ação passada que ficou no último ato. Como é a vida. Nada é colhido no momento que é plantado. O espectador vê os resultados das ações de Kikuo aparecerem durante o filme como elas aparecem em uma peça de teatro dramático, uma seguida da outra.

O final complementa o começo, assim como tudo no roteiro é muito bem construído para que nada na trama seja uma peça adjacente. Todo diálogo é importante. Toda cena e ação dos personagens precisa ser muito bem observada e o espectador precisa ter atenção para não perder um momento sequer, porque Kokuho é um filme que preza pelo detalhe.

Assim como no teatro Kabuki, Kokuho é um filme cuja história se expressa não apenas nos gestos e olhares dos personagens, mas também nas emoções transmitidas por seu som e estética, uma vez que uma de suas maiores qualidades é justamente a beleza visual das cenas, a sua maquiagem e o seu figurino. Não à toa foram indicados ao Oscar. É um filme belíssimo!

Ademais, Kokuho – O Preço da Perfeição é um filme magnífico do começo ao fim. Uma obra tecnicamente refinada, que acerta nos elementos cinematográficos e, ao mesmo tempo, transmite alma. Ele convida o espectador a sentir as mais variadas emoções: rir, chorar, sentir raiva do protagonista e torcer por ele. Isso gera uma aproximação característica de uma obra melodramática, que o filme é, mas principalmente de uma peça de teatro. E, como uma peça de Kabuki é geralmente longa, a sensação que fica depois de ver este filme é exatamente a de ter assistido a uma peça de teatro Kabuki. Kokuho é arte dentro da arte: é uma peça de Kabuki dentro de uma grande “peça” em formato de longa-metragem.

Kokuho significa literalmente como “tesouro nacional”, e é considerado o ponto mais alto que um ator de Kabuki pode alcançar profissionalmente, o que faz com que o ator seja prestigiado a ponto de ser um tesouro para a nação japonesa. Na perspectiva do que foi falado neste texto, o título “Kokuho” também pode servir para interpretar o próprio Kabuki, já que ele é uma das quatro formas de teatro tradicional japonês e foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

Os atores Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama atuaram em séries do gênero tokusatsu: Ryo foi Ryusei Sakuta, o Kamen Rider Meteor de Kamen Rider Fourze (仮面ライダーフォーゼ, 2011) e Ryusei foi Hikari Nonomura/ToQ4gou em Ressha Sentai ToQger (烈車戦隊トッキュウジャー, 2014).

Note: 10/10

Confira nosso especial sobre o teatro Kabuki em nosso podcast:

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