O episódio 24 de Kamen Rider Zeztz marca oficialmente o fim do que podemos chamar de primeiro grande arco da temporada, e faz isso da maneira mais pesada e profunda possível para uma série infantojuvenil que ainda tem como principal objetivo vender brinquedos, ou colecionáveis, se você preferir assim chamar. Com revelações impactantes, violência mais explícita do que o padrão recente da franquia e um final que brinca diretamente com a percepção do espectador, Zeztz mostra que não está interessado em seguir caminhos seguros.
A confirmação de que a Madame era a Agente 2 da CODE muda completamente a leitura da temporada até aqui. A personagem, que já vinha sendo construída como uma figura ambígua, ganha contornos ainda mais perturbadores quando sua história é revelada. A gravidez ocorrida dentro de um sonho é um dos conceitos mais inquietantes apresentados na série até agora. Não é apenas chocante pelo absurdo, mas pelo que representa. Se um sonho pode gerar vida no mundo real, então não há mais fronteira clara entre os dois planos. A linha simplesmente deixou de existir. Isso transforma Nem em uma figura, de certa forma, até messiânica.


A Madame não é uma vilã mal compreendida. Ela é uma mulher quebrada, consumida por anos sem dormir e por um trauma que nunca foi resolvido. Ao decidir proteger Nem a qualquer custo, ela aceita conscientemente que outras pessoas morram no processo. Isso cria um conflito moral interessante, pois, embora a CODE seja retratado como uma organização fria e manipuladora, a Madame não surge como contraponto heroico. Ela é igualmente extrema. A diferença é que sua motivação é pessoal, quase instintiva.
Baku atinge aqui seu ponto de ruptura definitivo. Assumindo totalmente a persona do Agente 7, ele passa a agir de maneira mais fria, distante e pragmática. O episódio deixa claro que Catastrom exige intenção absoluta. Não há espaço para dúvida. Quando Nem revela que a Madame é sua mãe, Baku hesita por um segundo. Esse único momento de humanidade é suficiente para destruir sua transformação. A sequência é visualmente brutal, com seu corpo sendo forçado a rejeitar o poder que estava usando. A mensagem é clara. O Agente 7 só existe enquanto Baku silencia o próprio coração.
O Agente 3 surge como antagonista implacável. Ao revogar o número de Baku e declarar que aquilo é a realidade, não um sonho, ele assume a posição de executor da ordem da CODE. O tiro no peito de Baku é seco, direto e acompanhado pela imagem da lua vermelha no céu, reforçando a associação constante entre o mundo real e o universo onírico. É uma cena forte, impactante e construída para soar definitiva.


E então vem o momento que transforma o episódio em algo ainda maior. Baku acorda no hospital exatamente como no episódio 1. A estrutura remete imediatamente à ideia de loop ou regressão temporal, mas o roteiro não entrega respostas fáceis. Foi tudo um sonho? A realidade se fragmentou no momento da morte? Ou estamos diante de camadas sobrepostas de consciência? O episódio constrói esse momento de forma extremamente inteligente, tentando enganar não apenas o protagonista, mas também o espectador.
Talvez exista uma leve inspiração perceptível em Inception, de Christopher Nolan, principalmente na forma como a narrativa trabalha a dúvida constante sobre o que é real. Assim como o pião no filme funciona como símbolo de instabilidade, a lua vermelha em Zeztz assume papel semelhante. O roteiro cria um momento muito interessante ao estabelecer uma sensação de conclusão definitiva, apenas para desmontá-la segundos depois. A expectativa de que tudo ficaria bem é atendida, mas de uma maneira curiosa e desconcertante. O alívio vem acompanhado de incerteza.
Outro ponto de destaque é o tom visual e a violência. A base da CODE é retratada de forma estéril e fria, quase clínica. As mortes em tela remetem a uma fase mais crua da franquia. As lutas são intensas, especialmente o confronto contra o Agente 3, que deixa claro o abismo de poder entre ele e Baku naquele momento. Zero humano também é revelado, reforçando que o jogo político dentro da CODE está longe de ser simples.


Nem consolida seu papel como peça central da temporada. Ela não é apenas um alvo da CODE, mas a chave que conecta sonho, realidade e manipulação institucional. Sua própria existência questiona as regras do universo da série. Se ela nasceu de um pesadelo, então o que mais pode ter sido criado da mesma forma?
O preview do próximo episódio indica um retorno direto aos eventos iniciais da temporada, sugerindo que veremos novamente situações já conhecidas sob outra perspectiva. A possibilidade de Baku usar o conhecimento adquirido para alterar eventos cria expectativa imediata, mas também levanta a questão clássica das narrativas envolvendo loops. Mudar o passado pode gerar consequências ainda piores.
No geral, o episódio 24 é confuso no melhor sentido possível. Ele não entrega conforto. Ele provoca, desestabiliza e amplia o mistério central da série. Zeztz demonstra coragem ao apostar em uma virada estrutural tão ousada no meio da temporada e, se souber desenvolver as implicações desse final, pode realmente se consolidar como uma das fases mais interessantes de toda a franquia.
E, para fechar, deixo uma dica para quem está acompanhando a série e talvez não tenha percebido. Quando Baku está atuando nos sonhos, a cor de seu cabelo e de seus olhos mudam, diferente dos demais personagens.
Nota: 9/10

Você precisa fazer login para comentar.