Quando o tokusatsu chegou ao Brasil, o termo já havia deixado de representar apenas as produções com efeitos especiais para se consolidar como um gênero da cultura pop japonesa. As primeiras obras exibidas no país foram os filmes da Toho, especialmente os de Godzilla (ゴジラ, 1954), e a série National Kid (ナショナルキッド, 1960), que estreou por aqui em 1964, na TV Record, alcançando enorme sucesso entre o público brasileiro. Nos anos seguintes, outras produções japonesas chegaram às emissoras nacionais, como Ultraman (ウルトラマン, 1966), Ultraseven (ウルトラセブン, 1967), Spectreman (スペクトルマン, 1971) e Os Vingadores do Espaço (マグマ大使, 1967), preparando o terreno para um fenômeno que mudaria para sempre a relação dos brasileiros com o gênero.
Embora esse período tenha sido importante para popularizar as séries japonesas, não é possivel chamar de primeiro boom do tokusatsu no Brasil, pois foi somente com a chegada de duas produções no fim dos anos 1980 que a televisão e o mercado brasileiro foram efetivamente invadidos por séries, brinquedos, álbuns de figurinhas, quadrinhos e outros produtos relacionados ao gênero. Um paralelo interessante pode ser feito com o próprio Japão, onde o termo tokusatsu, cunhado em 1954 com o lançamento de Godzilla (ゴジラ, 1954), só passou a ser reconhecido como um gênero em 1966, impulsionado pelo sucesso de Ultraman.
O grande marco aconteceu em 1988, quando a extinta TV Manchete estreou O Fantástico Jaspion (巨獣特捜ジャスピオン, 1985) e Esquadrão Relâmpago Changeman (電撃戦隊チェンジマン, 1985) dentro do programa Clube da Criança, apresentado por Angélica. Embora ambas as séries já tivessem chegado ao Brasil no ano anterior por meio de fitas VHS distribuídas pela Everest Video, foi a exibição na televisão aberta, iniciada em 22 de fevereiro de 1988, que transformou o gênero em um fenômeno de audiência. O sucesso foi imediato, impulsionando a chegada de dezenas de outras produções japonesas e consolidando Jaspion e Changeman como dois dos maiores ícones da cultura pop brasileira. Para boa parte dos fãs e especialistas, esse momento representa o primeiro grande boom do tokusatsu no Brasil, quando o gênero passou a fazer parte do cotidiano de milhões de crianças e adolescentes e conquistou um espaço que influenciaria toda uma geração.


Entre 1988 e o fim da década de 1990, o Brasil viveu a maior expansão do tokusatsu em sua história até então. Impulsionado pelo sucesso de Jaspion e Changeman, o mercado rapidamente passou a receber novas produções japonesas, como Comando Estelar Flashman (超新星フラッシュマン, 1986), Kamen Rider Black (仮面ライダーBLACK, 1987), Jiraiya, O Incrível Ninja (世界忍者戦ジライヤ, 1988), Policial de Aço Jiban (機動刑事ジバン, 1989), Cybercop, Os Policiais do Futuro (電脳警察サイバーコップ, 1988), Winspector (特警ウインスペクター, 1990), Lion Man (快傑ライオン丸, 1972) e muitas outras. O sucesso das séries também impulsionou o lançamento de brinquedos, álbuns de figurinhas, histórias em quadrinhos, fantasias e diversos produtos licenciados, transformando o tokusatsu em um dos principais fenômenos da cultura pop brasileira e em um dos pilares da programação infantil da época.
Entretanto, esse cenário começou a mudar na segunda metade da década de 1990. A expansão internacional de Power Rangers, adaptação americana de Kyoryu Sentai Zyuranger (恐竜戦隊ジュウレンジャー, 1992), fez com que muitas emissoras passassem a priorizar produções ocidentais inspiradas no tokusatsu em vez das séries japonesas originais. O enorme sucesso da franquia abriu caminho para outras adaptações e reduziu significativamente o interesse pela importação de novas produções japonesas. No Brasil, esse movimento coincidiu com o fim da chegada em massa de séries inéditas, encerrando o primeiro grande boom do tokusatsu e iniciando um período em que o gênero passou a sobreviver principalmente graças à dedicação de seus fãs.


Ao longo dos anos seguintes, as novas produções praticamente desapareceram da televisão. Ainda assim, o interesse pelo gênero nunca deixou de existir. Durante parte dos anos 1990 e 2000, revistas como a Herói e outras publicações especializadas ajudaram a manter vivo o interesse pelo tokusatsu, mas foram os próprios fãs que, durante quase duas décadas, sustentaram o gênero por meio de eventos, fóruns, encontros, sites especializados, blogs, comunidades, canais no YouTube e redes sociais. Muitos desses projetos permanecem ativos até hoje, incluindo o próprio Tokusatsu.com.br, que continua atuando na divulgação do gênero. Os fansubs, grupos responsáveis por legendar e distribuir gratuitamente as séries, também tiveram um papel fundamental, permitindo que o público brasileiro continuasse acompanhando os lançamentos japoneses.
Nesse período também surgiram iniciativas que alimentaram a esperança de uma retomada, como o anúncio da exibição de Kamen Rider Kuuga (仮面ライダークウガ, 2000), que acabou não se concretizando, e o lançamento em DVD de algumas séries clássicas, que possibilitou a dublagem dos dois últimos episódios inéditos de Jiban. Embora pontuais, essas ações, somadas ao trabalho incansável da comunidade, foram fundamentais para preservar a memória do tokusatsu no Brasil e manter vivo o interesse pelo gênero até o início de sua nova fase.


Mesmo nesse período de menor exposição, algumas produções chegaram oficialmente ao Brasil. Madan Senki Ryukendo (魔弾戦記リュウケンドー, 2006) foi exibida pela RedeTV!, Ultraseven X (ウルトラセブンX, 2007) entrou no catálogo da Netflix, novos filmes de Godzilla e Ultraman chegaram ao mercado brasileiro e diversas séries da franquia Ultraman passaram a ser disponibilizadas pela Crunchyroll. Embora importantes, esses lançamentos ainda eram pontuais e insuficientes para representar uma retomada consistente do gênero.
Ao longo desse período, também foi comum encontrar emissoras locais e canais de televisão reprisando séries clássicas de tokusatsu que marcaram gerações. No entanto, em muitos casos, não havia informações claras sobre a origem dessas exibições ou sobre a existência de licenciamento oficial, tornando difícil confirmar a situação dos direitos de transmissão. Ainda assim, essas reprises ajudaram a manter o gênero presente na memória do público enquanto um retorno mais estruturado ainda parecia distante.
A mudança começou em 2020. Em meio ao início da pandemia de COVID-19, a Band surpreendeu ao exibir novamente Changeman, Jaspion, Jiraiya e os primeiros episódios de Kamen Rider Black nas manhãs de domingo em parceria com a Sato Company, apresentando esses clássicos a uma nova geração de espectadores. No mesmo ano, a Sato anunciou oficialmente o lançamento de Kamen Rider Zi-O (仮面ライダージオウ, 2018) no Brasil e produziu a aguardada dublagem do último episódio inédito de Kamen Rider Black, completando oficialmente a versão brasileira da série mais de três décadas após sua estreia no país. Esses acontecimentos marcaram o início de uma nova fase para o mercado nacional, sinalizando que o tokusatsu voltava a receber investimentos e atenção das distribuidoras brasileiras.


Nos anos seguintes, o crescimento tornou-se evidente. Novas séries passaram a ser licenciadas oficialmente e diversas produções receberam dublagem em português, entre elas Kamen Rider Build (仮面ライダービルド, 2017), um dos momentos mais esperados pelos fãs brasileiros. O Brasil também passou a receber lançamentos inéditos nos cinemas, como Kamen Rider Zero-One: REAL×TIME (劇場版 仮面ライダーゼロワン REAL×TIME, 2020), primeiro filme da franquia exibido oficialmente e dublado nas telonas do país. Além disso, as estreias simultâneas com o Japão passaram a fazer parte da realidade dos fãs brasileiros, tendo início com Kamen Rider Zeztz (仮面ライダーゼッツ, 2026), passando por Super Policial do Espaço Gavan Infinity (超宇宙刑事ギャバン インフィニティ, 2026) e Kakusei Hunter Omegahorn (角醒ハンターオメガホーン, 2026).
Essa nova fase também impulsionou o mercado editorial. Editoras como NewPOP, JBC, Pipoca & Nanquim, Comix Zone e Panini passaram a publicar mangás relacionados ao gênero, enquanto projetos como o Guia Visual Definitivo, da Editora Mozu, demonstraram que havia demanda por obras de pesquisa e referência sobre o tema. Ao mesmo tempo, diversos canais no YouTube, podcasts, sites especializados, autores nacionais e criadores de conteúdo ampliaram significativamente a cobertura do gênero, contribuindo para formar novos fãs e fortalecer uma comunidade que voltava a crescer.
O gênero também retornou à televisão aberta com Madan Senki Ryukendo sendo exibido no programa Antimatéria, da TV Cultura, em 2026, reforçando que o interesse das emissoras pelo segmento voltava a crescer. O próprio Antimatéria também passou a dar grande destaque ao tokusatsu em seu conteúdo. Outro grande destaque desse novo momento foi a atuação da Sato Company, que deixou de atuar apenas como distribuidora e passou a investir em uma plataforma própria dedicada ao gênero, o TokuSato, ampliando o acesso legal às produções japonesas e fortalecendo ainda mais o mercado brasileiro de tokusatsu.


Um ponto importante é que, durante os anos 1990 e, principalmente, a partir dos anos 2000, também surgiram diversos projetos nacionais inspirados no tokusatsu. O gênero passou a influenciar quadrinhos, livros e produções live-action, dando origem a obras como Insector Sun e Timerman. A música também abraçou esse universo com projetos de Ricardo Cruz e bandas com Gaijin Sentai, Kame Rider, Gattai e Project Dragons, enquanto eventos inteiramente dedicados ao gênero, como o Alma Tokusatsu e o Super Action Toku BR, passaram a reunir fãs de todo o país. Esses projetos demonstram que, mesmo durante um período de poucas novidades oficiais, o tokusatsu continuou inspirando criadores brasileiros e fortalecendo sua comunidade.
E nem vamos entrar no mérito do filme brasileiro de O Fantástico Jaspion, anunciado pela Sato Company. Entre adiamentos, expectativas e especulações, o projeto acabou se tornando um dos assuntos mais comentados do fandom brasileiro, oscilando entre meme e promessa. Ainda assim, seu anúncio foi suficiente para mostrar que a marca Jaspion continua forte e capaz de mobilizar muito além da comunidade de fãs.
Os reflexos dessa retomada podem ser vistos em todo o mercado. O público aumentou, novos fãs passaram a descobrir o gênero e eventos como o Anime Friends voltaram a receber um número cada vez maior de artistas japoneses ligados ao tokusatsu. Em nossa análise, existem argumentos suficientes para afirmar que, desde 2020, o Brasil vive o segundo grande boom do tokusatsu. Ainda que esse movimento não tenha alcançado a mesma dimensão do fenômeno vivido entre o fim dos anos 1980 e a década de 1990, nunca houve, desde então, um período com tantos licenciamentos, dublagens, exibições, estreias simultâneas e investimentos oficiais no gênero em território brasileiro.
Ficou faltando muita informação, mas o texto consegue dar um panorama geral do gênero no Brasil e explicar por que podemos considerar o momento atual como o segundo boom do tokusatsu por aqui.
Fotos: Divulgação.
Para encerrar a leitura, relembre a abertura de O Fantástico Jaspion:

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