De alguns anos para cá, Katsushi Murakami se tornou bastante conhecido entre os tokufãs brasileiros. Mas esse reconhecimento pode ter um ponto cego: muitos o associam majoritariamente ao tokusatsu, enquanto sua contribuição em outras obras lançadas no Brasil permanece relativamente fora do radar. Sim, trata-se de obras “off tokusatsu”, mas que não deixam de ter um diálogo com o gênero, seja pelos robôs gigantes, seja pelo lugar que ocupam na memória afetiva da dita Geração Manchete. Existem algumas produções com passagem pelo país, das mais populares às mais obscuras, cuja participação do mestre pode ser um tanto inesperada.
Comecemos por uma obra que dispensa apresentações: Cavaleiros do Zodíaco. Apesar de ser uma criação de Masami Kurumada, Murakami teve uma importante participação no sucesso da série. Tudo começou quando Yukimasa Sugiura, seu superior na Bandai, lhe trouxe um recorte de revista do Seiya, dizendo que o próprio filho achava a série superdivertida. A partir daí, Murakami começou a desenvolver novos conceitos para os personagens, a fim de transformá-los em figuras de ação.

Sua ideia inicial era que a armadura de Seiya, em vez de ser baseada em uma constelação, equipasse o herói a partir do formato de um veículo. Como sabemos, isso não aconteceu, mas essa premissa acabou sendo aproveitada na criação dos Cavaleiros de Aço, personagens exclusivos do anime. Não há informação suficiente sobre se o design definitivo desses cavaleiros foi concebido por Murakami ou não, embora possam ser encontrados em algumas publicações japonesas os designs preliminares feitos por ele para esse conceito. Seja como for, foi ele que desenvolveu o sistema de encaixe das armaduras no corpo dos bonecos da linha Saint Cloth clássica, um sucesso de vendas no Japão.
Poderíamos até dizer que a chegada de Cavaleiros do Zodíaco ao Brasil tem alguma relação com o trabalho de Murakami: o interesse da Samtoy no lançamento do anime era principalmente a comercialização dessa linha de brinquedos, a qual conseguiu, de fato, replicar em nosso país o sucesso obtido em seu país de origem.



Desenhos conceituais de Murakami para Seiya (esq.): premissa que seria posteriormente aproveitada na criação dos Cavaleiros de Aço (dir.).
Se, de certa forma, a passagem de Cavaleiros do Zodíaco no Brasil está ligada aos brinquedos desenvolvidos por Murakami, existe uma produção que, no Japão, não teria sequer saído do papel sem sua contribuição. Isso aconteceu com um anime de 1980, cuja proposta era modernizar uma obra anterior do mangaká Mitsuteru Yokoyama: Tetsujin 28-go. O mangá já tinha ganhado uma versão em anime na década de 60, chegando inclusive a passar no Brasil como O Homem de Aço na TV Tupi. Mas, desta vez, Yokoyama não estava tão entusiasmado com a ideia de uma nova adaptação de seu mangá para a telinha.
Entretanto, ver o redesign de Murakami para seu robô gigante foi suficiente para que o autor mudasse de ideia. Sem o desenho de Murakami, o aval para esse projeto não teria sido dado. No Brasil, essa nova versão chegou em quatro fitas VHS a partir de 1987, pela Hot Vídeo, com o título de Iron Man 28.


O Tetsujin 28-go de 1963 e o de 1980 chegaram ao Brasil com títulos diferentes e sem nenhum vínculo entre si.
O Iron Man 28 de Murakami ilustrou gloriosamente as capas de todas essas VHS nacionais, mas há um caso no Brasil em que o ditado “Nunca julgue uma obra pela capa” parece ter sido especialmente verdadeiro em relação a outro trabalho seu. Trata-se de um anime de 1983 que teve passagem pelo Brasil graças a um diretor de cinema italiano radicado no Rio de Janeiro. Michele Massimo Tarantini trouxe a produção para o Brasil em VHS em 1988 pela Tevelândia, empresa fundada por ele no ano anterior. Inicialmente, duas fitas parecem ter chegado ao mercado, apesar de se poder encontrar atualmente na internet a capa de apenas uma delas. Já no início dos anos 1990, uma outra fita foi lançada com o selo Silver Star Vídeo; na verdade, era a mesma empresa. O empresário tinha adquirido a produção na Itália, da Doro TV Merchandising.
A mesma imagem usada nas fitas nacionais era a que constava no catálogo da Doro, a qual fora originalmente retirada do catálogo de exportação da Toei. Na capa de pelo menos uma das primeiras fitas lançadas, justamente o principal robô desenhado por Murakami aparece cortado da composição da imagem, de modo que apenas sua parte inferior pode ser vista. Essa escolha é curiosa porque é esse robô que batiza a série: Arbegas. Até mesmo a letra do tema de abertura, cantado na majestosa voz de MoJo, enfatiza os mecanismos criados pelo designer: “santai gattai roku-henge”, algo como “três robôs se combinam de seis formas diferentes”. No posterior lançamento da Silver Star, porém, o “erro” foi reparado e Arbegas aparece por inteiro.

Se Arbegas é um nome que soa meio estranho a muitos brasileiros, o mesmo não pode ser dito de Voltes V. A adaptação filipina em live-action desse anime chamou atenção na internet em 2023, o que pode ter contribuído para um maior reconhecimento da produção original no Brasil. A passagem oficial do anime por aqui, por sua vez, pode ser pouco conhecida e é bem particular. Antes mesmo de a série chegar ao Brasil pela Sato Company em duas fitas VHS por volta de 1994 com o título de Voltes Cinco (V), a produção apareceu aqui em um formato diferente.
Em 1987, a empresa de Nelson Sato, então chamada Brazil Home Video, lançou a produção em VHS com o título Voltus V (Five) impresso na capa. A fita trazia, na verdade, um filme compilatório de alguns episódios da série, preparado pela empresa filipina Uniprom Films para distribuição internacional em cooperação com a própria Toei. Apesar do nome grafado com U na capa, o logotipo na abertura do anime aparece grafado com E, Voltes V (Five), enquanto a clássica voz do dublador Ricardo Mariano anuncia a produção como “O Ataque Voltes Cinco”. O robô gigante, a principal contribuição de Murakami na obra, acabou sendo submetido, portanto, a essa verdadeira “salada” de nomes, grafias e pronúncias.

O primeiro lançamento de Voltes V no Brasil.
Talvez ainda mais sonoro para os brasileiros do que Voltes V seja o nome Voltron. Muito desse reconhecimento talvez se deva ao desenho animado lançado pela Netflix em 2016. Mas essa produção é apenas um reboot da série americana de 1984, a qual, por sua vez, era uma adaptação da japonesa Golion, de 1981. O anime original nunca chegou ao Brasil, mas a versão americana sim: oito fitas VHS foram lançadas entre 1987 e 1989 pela Look Video. Apesar de nunca ter passado na televisão, Voltron ganhou uma linha de brinquedos da Glasslite. E daí nasceria, já na segunda metade dos anos 90, uma das mais curiosas “glasslitadas” da empresa: os moldes dos leões robóticos que formavam o robô gigante Voltron foram reaproveitados em um kit de Shurato, já que este herói também era baseado em um leão.
A estratégia, aparentemente, era fazer a criançada acreditar que o personagem possuía seu próprio robozão. A produção, no entanto, nada tinha a ver com Voltron: Shurato era um anime de uma produtora e de uma distribuidora diferentes. Um álbum de figurinhas também chegou às bancas, trazendo belas imagens daquele que é o elemento mais importante para toda essa história: o próprio Voltron/Golion. Como você já pode imaginar: sim, seu design foi concebido por Katsushi Murakami. Mas, se em Voltron houve alteração de título em relação à obra japonesa, na produção a seguir a mudança de nome causaria um efeito diferente.

Um outro trabalho de Murakami com passagem pelo Brasil, mas bastante desconhecido entre nós, é uma série exibida no Japão em 1984. Distribuída pela Hot Vídeo três anos depois, chegou ao nosso país por meio de uma única fita VHS. De maneira semelhante ao que aconteceu na mesma época com Voltes V, a VHS incluía os primeiros episódios editados em formato de filme. Estamos falando do anime O Garoto Biônico. Enquanto no Japão a série foi batizada com o nome do robô desenhado por Murakami, Laserion, no Brasil o título destacou o personagem que o controlava. É interessante notar que o título nacional tirou o foco do trabalho do designer.
Enquanto em O Garoto Biônico houve edição e troca de nome, em outra obra que chegaria ao Brasil alguns anos depois, haveria transformações ainda mais radicais. Refiro-me a um “anime” que estreou no final dos anos 1980 no SBT com dublagem da Maga. A palavra anime está entre aspas porque, apesar de ser originalmente japonês, foi tão pesadamente alterado nos EUA que se tornou uma nova obra. Os americanos transferiram o protagonismo do líder original para outro membro da equipe, inclusive rebatizando a série com seu nome: Saber Rider and the Star Sheriffs. Assim como em O Garoto Biônico, a alteração do título eclipsou a principal contribuição de Murakami: Bismark, o veículo gigante que se transforma em robô e que dá nome à série original. Nome esse que, a propósito, mudou na versão americana para Ramrod.
Murakami também concebeu os trajes de combate dos heróis e seus veículos individuais. Esses últimos acabariam sendo igualmente “vítimas” dessas alterações de nome feitas nos EUA. A americanização chegou ao Brasil com ainda mais camadas: além da dublagem já mencionada, a série posteriormente ganhou outra dublagem pela Álamo para os lançamentos em VHS e DVD. Cada dublagem tinha suas particularidades: enquanto a Maga chamou Bismark/Ramrod de “Vagão Voador”, a Álamo tentou manter o Ramrod da versão americana, embora a pronúncia equivocada do inglês tenha feito a palavra soar como “run road”. Apesar de tudo isso, em Saber Rider pelo menos ainda é possível reconstruir muitas das transformações ocorridas no Brasil. Da produção que abordaremos a seguir, a própria existência é obscura por si só. A exibição no Brasil, então, foi ainda mais problemática.

Uma das séries mais difíceis de se rastrear chegou aqui em 1998 pela Fox Kids e, pouco tempo depois, passou na Rede Globo. Nesta última emissora, era exibida naquele horário próximo ao meio-dia, quando as retransmissoras interrompiam a programação nacional para exibir seus telejornais locais, de maneira que só podia vê-la quem tinha antena parabólica. A Globo a chamou de Esquadrão Pássaro, mas você também pode se referir a ela pelo título original com que chegou à Fox Kids: Eagle Riders. Essa série, assim como Saber Rider, tampouco era exclusivamente japonesa, mas uma adaptação pela Saban de Gatchaman II e Gatchaman Fighter. E foi justamente nessas séries-base que Murakami nos brindou com sua contribuição: o design dos principais veículos dos heróis, todos rebatizados na versão americana. Já na versão brasileira, é impossível saber como ficaram esses nomes: atualmente a dublagem parece estar perdida.
Depois de tantas mudanças de nome, adaptações, reaproveitamentos e versões diferentes, é difícil imaginar que possa haver uma história capaz de juntar todas essas bizarrices num único caso. Mas ela existe, e talvez seja justamente a mais fascinante de todas. Os primeiros anúncios desses brinquedos em jornais brasileiros datam de meados de 1985. Eram veículos que se transformavam em robôs e vice-versa. No Japão, a linha se chamava Machine Robo. No Brasil, a Glasslite decidiu batizá-la de Mutante. Murakami criara os quatro primeiros Machine Robos da coleção original, dos quais apenas um chegou à coleção brasileira: Jet Robo, rebatizado por aqui com o aleatório nome de Zumor.

Há muitas teorias na internet sobre como essa linha de brinquedos veio parar no Brasil, mas a hipótese mais plausível é que a Glasslite simplesmente tenha comprado os brinquedos no exterior e os tenha copiado para comercialização não licenciada por aqui. Alguns fatores apontam nessa direção: a economia brasileira ainda era bastante protecionista na época, as embalagens não traziam qualquer indicação de copyright da Bandai, entre outras razões. E a história fica ainda mais estranha porque, de forma mais ou menos simultânea, a Mimo também lançou a mesma coleção no país, só que com o nome de Convert, provavelmente também sem licença. A linha da Mimo, entretanto, não trazia nenhuma das criações de Murakami.
Em janeiro de 1987, no Xou da Xuxa, estreou um desenho animado da Hanna-Barbera intitulado Os GoBots: Os Super Robôs. A série tinha sido encomendada pela Tonka, licenciadora americana da linha Machine Robo, justamente para promover os brinquedos nos Estados Unidos. Sim, lá decidiram lançá-los como GoBots, e os robôs individualmente também receberam novos nomes. Na produção, todas as quatro criações de Murakami felizmente dão as caras. O curioso é que, no Brasil, não foi feito nenhum vínculo entre o desenho exibido na Globo e os brinquedos que estavam no mercado.
Tanto que nosso Zumor aparecia na produção americana como Fitor. E a confusão estava longe de terminar: pouco depois, a própria Glasslite lançaria outra leva de Mutantes, na qual o mesmo Zumor (ou Fitor, no desenho) ganharia um terceiro nome no Brasil: Detector. Para contribuir com a salada, uma empresa chamada Formosa chegou a lançar um único modelo de “Machine Robo” (em diversas cores, a propósito), identificado na embalagem apenas como Robo Tank. Era a criação Battle Robo, também de Murakami. Na produção da Hanna-Barbera, ele aparecia com um nome ainda mais simples: Tank. A última curiosidade desta história é: Jet Robo que também é Zumor, que também é Fitor e que também é Detector foi, afinal, a primeira criação de Murakami a chegar ao nosso país.




A primeira criação de Murakami a chegar ao Brasil, num maravilhoso anúncio de 1986 das Lojas Arapuã: você pode chamá-lo de Zumor, mas também de Fitor, de Detector ou mesmo de Jet Robo.


Como pudemos perceber, a presença de Murakami, falecido em 2026, no Brasil foi muito mais ampla do que seu já expressivo trabalho no tokusatsu poderia levar boa parte dos tokufãs brasileiros a crer. Seu talento esteve ao nosso redor por décadas, nos mais diversos meios. Era impossível juntar todas essas peças na época, mas hoje é fascinante encontrar sua assinatura em obras aparentemente tão desconectadas entre si e, ao mesmo tempo, descobrir as inusitadas trajetórias desses trabalhos no nosso país.

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