Colunas, Artigos

Além do tokusatsu: ‘Shinobi no Mono’, o filme que mudou para sempre a história dos ninjas no cinema

Publicidade

Muito antes dos ninjas conquistarem o mundo em filmes de ação, videogames e quadrinhos, eles já faziam parte da história e do imaginário japonês. No entanto, sua representação nem sempre foi a dos guerreiros vestidos de preto capazes de realizar feitos quase sobrenaturais. Essa transformação começou a ganhar forma em 1962 com Shinobi no Mono (忍びの者), adaptação do romance de Tomoyoshi Murayama que revolucionou a forma como os shinobi eram retratados no cinema. Ao abandonar o tom fantasioso e apresentar esses personagens como agentes de espionagem inseridos em um contexto histórico e político, o filme tornou-se um marco do gênero jidaigeki e uma das produções mais influentes da história do cinema japonês.

Escrito por Tomoyoshi Murayama, o romance foi publicado originalmente entre novembro de 1960 e maio de 1962 na edição dominical do jornal Akahata. Dramaturgo, romancista e intelectual ligado aos movimentos de esquerda, Murayama utilizou o período Sengoku (1467–1615) para construir uma narrativa que ia muito além das aventuras de ninjas. Em sua obra, os shinobi aparecem como homens comuns explorados pelos poderosos, obrigados a cumprir missões perigosas em meio às disputas pela unificação do Japão. O sucesso da publicação foi imediato e deu origem a continuações, adaptações teatrais, uma série de televisão e, naturalmente, ao cinema. O próprio título utiliza a antiga expressão shinobi no mono, literalmente “aquele que se esconde”, uma forma tradicional de designar os ninjas antes da popularização do termo “ninja”.

A adaptação cinematográfica estreou em 1º de dezembro de 1962 produzida pela Daiei, um dos maiores estúdios japoneses da época. Dirigido por Satsuo Yamamoto, com roteiro de Hajime Takaiwa, fotografia de Yasukazu Takemura e trilha sonora de Chumei Watanabe, nome muito conhecido entre os fãs de tokusatsu, o longa reuniu um elenco de peso liderado por Raizo Ichikawa no papel de Ishikawa Goemon. Também participam Yunosuke Ito como Momochi Sandayu, Shiho Fujimura, Kyoko Kishida e Tomisaburo Wakayama, creditado com seu antigo nome artístico Kenzaburo Jo, interpretando Oda Nobunaga. Filmado em preto e branco, o longa impressionou pela fotografia contrastada e pelo uso de sombras e cenários naturais para criar uma atmosfera de constante tensão.

A história acompanha Ishikawa Goemon, um jovem shinobi do clã de Momochi Sandayu que acaba envolvido nas disputas entre os clãs de Iga e Koga durante o período Sengoku. Após romper com seu mestre, Goemon recebe a missão de assassinar Oda Nobunaga, o poderoso daimyo que busca unificar o Japão e representa uma ameaça direta à independência das províncias ninja. Em vez de batalhas grandiosas, Shinobi no Mono constrói sua narrativa por meio de infiltrações, espionagem, sabotagens, traições e manipulações políticas, mostrando que os shinobi eram peças descartáveis utilizadas pelos governantes em seus conflitos de poder.

Esse realismo foi justamente o grande diferencial da produção. Enquanto muitas obras posteriores transformariam os ninjas em guerreiros quase mágicos, o filme procurou retratá-los como especialistas em inteligência militar, infiltração, disfarces e coleta de informações, funções historicamente atribuídas aos shinobi. Ao mesmo tempo, a narrativa evidencia como esses homens eram constantemente sacrificados por seus líderes, utilizando o Japão do século XVI como uma alegoria para discutir temas contemporâneos ao período em que o filme foi produzido, como autoritarismo, exploração social, obediência cega e os impactos das disputas pelo poder no Japão do pós-guerra.

O enorme sucesso de Shinobi no Mono transformou o longa em uma das franquias mais importantes do cinema histórico japonês. Entre 1962 e 1966, a Daiei produziu oito filmes da série. Os três primeiros adaptaram diretamente os romances de Tomoyoshi Murayama, enquanto os demais passaram a utilizar roteiros originais, introduzindo personagens como Kirigakure Saizo e outros lendários shinobi. A popularidade também levou à criação de uma série de televisão produzida pela Toei para a NET, atual TV Asahi, exibida entre 1964 e 1965 com 52 episódios estrelados por Ryuji Shinagawa. Durante décadas acreditou-se que todo o seriado estivesse perdido, até que a preservação do primeiro episódio foi confirmada pela Toei, que o lançou restaurado em DVD em 2021.

O impacto da obra também foi decisivo para o chamado “boom ninja” que tomou conta do Japão durante os anos 1960. Ao lado dos romances de Futaro Yamada, dos mangás de Sanpei Shirato e de outras produções da época, Shinobi no Mono ajudou a renovar o interesse do público pelos shinobi e estabeleceu muitos dos elementos visuais que passariam a ser associados a eles, como as missões secretas, as infiltrações noturnas, o uso de disfarces, armas ocultas e estratégias de espionagem. Mais do que apresentar ninjas como simples guerreiros, a franquia contribuiu para consolidá-los como personagens complexos, marcados por dilemas morais e conflitos políticos.

A influência de Shinobi no Mono ultrapassou as fronteiras do Japão e ajudou a moldar a imagem moderna dos ninjas em todo o mundo. Embora não tenha sido o único responsável pela popularização da palavra “ninja” no Ocidente, o sucesso da franquia foi fundamental para consolidar essa representação tanto no cinema japonês quanto na cultura popular internacional. Décadas depois, durante a chamada Ninjamania dos anos 1980, filmes estrelados por Sho Kosugi, produções hollywoodianas, quadrinhos, videogames e séries de televisão retomariam diversos elementos estéticos desenvolvidos por Shinobi no Mono, ainda que acrescentassem componentes fantásticos inexistentes na obra original. Assim, muito do que hoje faz parte do imaginário coletivo sobre os ninjas pode ser rastreado até essa produção lançada em 1962.

Mais de sessenta anos após sua estreia, Shinobi no Mono permanece como um dos maiores clássicos do cinema japonês. Sua importância vai além do sucesso comercial ou da longeva franquia que originou. O filme redefiniu a maneira como os ninjas passaram a ser representados nas telas, aproximando-os da história, transformando-os em protagonistas de um drama humano e político e influenciando gerações de cineastas, escritores e artistas. Poucas obras exerceram tamanho impacto na construção da imagem moderna dos shinobi quanto o trabalho de Satsuo Yamamoto e Tomoyoshi Murayama, tornando Shinobi no Mono uma referência indispensável para compreender a evolução dos ninjas na cultura pop.

Confira nossa resenha e áudio, em nosso podcast, sobre o primeiro filme de Shinobi no Mono e a Ninjamania:

Compartilhe
Publicidade

Mais artigos

Anime Friends ganha destaque na imprensa japonesa após edição histórica com 230 mil visitantes

Review: Episódio 23 de ‘Super Policial Gavan Infinity’ entrega final aberto para o universo dos ‘Gavans’

‘Ultraman’ 60 anos: Por que a palavra tokusatsu surge em 1954, mas só se torna um gênero em 1966?

Review: Episódio 22 de ‘Super Policial Gavan Infinity’ questiona destino de ‘Reiji’ como Gavan

Review: Episódio 43 de ‘Kamen Rider Zeztz’ coloca ‘Sieg’ diante do próprio destino

Review: Episódio 2 de ‘Ultraman Teo’ aposta nas relações humanas e apresenta um novo kaiju