O terceiro episódio de Kakusei Hunter Omegahorn é um capítulo divertido e importante para a expansão do universo da série. Ao apresentar com mais clareza o funcionamento do domínio de Eval, o episódio revela que seus antagonistas não são simplesmente vilões interessados em conquistar ou destruir tudo ao redor. Eles também protegem cidades, organizam territórios e mantêm uma espécie de ordem própria, ainda que sustentada por violência e exploração. Essa contradição é, até agora, uma das ideias mais interessantes da temporada. A população não parece lidar apenas com um grupo de tiranos, mas com uma estrutura de poder que oferece proteção enquanto cobra obediência, criando uma ambiguidade que impede o conflito de ser reduzido a uma simples divisão entre heróis e vilões.
A exploração das minas de Egorgears reforça essa leitura. Os objetos que, para Shout, representam aventura, descoberta e ligação com o passado, para aquelas pessoas significam trabalho forçado e submissão. O episódio cria um contraste interessante entre a visão romântica do protagonista sobre a caça ao tesouro e a realidade daqueles que são obrigados a escavar esses mesmos artefatos. O universo de Omegahorn ganha força justamente quando sua mitologia deixa de ser apenas um sistema de poderes e passa a afetar a vida de comunidades inteiras. Esse também é um momento importante para Shout. Embora ele continue sendo um protagonista de carisma limitado, sua postura diante da exploração revela seus valores e mostra que começa a agir como Capitão Omegahorn não apenas por possuir o artefato, mas por assumir a responsabilidade que vem com ele.


A expansão das regras de batalha também funciona bem. A lógica de que o vencedor pode tomar o Egorgear do adversário aproxima a série de uma estrutura de competição e coleta, evocando tanto Medabots quanto o imaginário de Pokémon. Omegahorn, porém, tenta dar a esse sistema uma dimensão social: os Egorgears não são apenas criaturas ou ferramentas de combate, mas recursos valiosos, símbolos de poder e, em alguns casos, instrumentos de dominação. Essa abordagem ajuda a diferenciar a proposta da série e mostra que seu sistema de batalha está diretamente ligado à estrutura daquele mundo.
Giriko é uma adição muito bem-vinda ao núcleo de Shout. A química entre os dois funciona porque ela não surge apenas como uma possível aliada eficiente, mas como alguém capaz de desafiar o protagonista e equilibrar sua impulsividade. Sua relação com Enkaku também fortalece a dinâmica do trio. O detalhe de Enkaku ser enfraquecido pela água é simples, mas importante, pois revela uma vulnerabilidade concreta e dá ao personagem uma personalidade mais definida. Enkaku continua sendo, para mim, o personagem mais completo da temporada. Ele ajuda Shout a amadurecer, mas também está descobrindo gradualmente o próprio passado e as limitações de sua condição. Pequenos traços como seu medo da água fazem diferença e impedem que ele seja apenas uma ferramenta de transformação.
Em contrapartida, os gêmeos permanecem pouco relevantes. A participação deles serve principalmente para introduzir um novo Egorgear, sem produzir um impacto emocional ou narrativo significativo. O comerciante que aparece em diferentes localidades também reforça a inspiração em jogos de captura, troca e coleta, embora a repetição de figuras visualmente idênticas faça o mundo parecer mais artificial do que deveria. Essa artificialidade também está presente nos antagonistas, que atuam de maneira extremamente caricata, com gestos e discursos que parecem importar diretamente uma linguagem de anime para o tokusatsu. A proposta lúdica e quase “gameficada” de Omegahorn torna esse exagero compreensível, mas ainda existe uma diferença entre uma estética caricatural coerente e personagens que parecem não possuir qualquer camada além do exagero.


As cenas de ação, felizmente, apresentam uma melhora. A luta em dupla permite uma coreografia mais dinâmica, e é positivo ver Shout efetivamente combatendo como Capitão Omegahorn. A série parecia correr o risco de transformar seu protagonista em alguém que apenas administra Enkaku e os Egorgears, mas o episódio mostra que ele pode ocupar fisicamente o centro dos confrontos. A ação ainda tem excesso de efeitos e não é particularmente elegante, mas está mais compreensível e integrada ao desenvolvimento do personagem, mostrando uma evolução em relação aos episódios anteriores.
O maior trunfo de Kakusei Hunter Omegahorn, entretanto, continua sendo o mistério envolvendo Reiji. A dúvida sobre sua identidade, suas motivações e seu papel dentro do domínio de Eval sustenta uma parcela enorme do interesse da temporada. O episódio amplia essa questão sem oferecer respostas definitivas, o que é positivo enquanto houver progressão real. O risco é que Reiji continue funcionando apenas como uma promessa narrativa, roubando espaço de Shout sem que o mistério avance o suficiente para justificar isso. Por enquanto, a série consegue manter essa curiosidade, mas precisará começar a entregar respostas para que o mistério não se torne apenas um recurso para prolongar a trama.
O terceiro episódio é, portanto, uma expansão consistente do universo, mas também evidencia as limitações da série. Omegahorn acerta quando explora suas estruturas de poder, desenvolve Enkaku e apresenta as contradições do domínio de Eval. Porém, ainda derrapa no excesso de caricatura, na pouca força dos gêmeos e em um protagonista que permanece menos interessante do que os coadjuvantes ao seu redor. No fim, é um capítulo que mostra que há mais complexidade nesse mundo do que sua estética exagerada inicialmente sugere. Eval protege, mas escraviza; os Egorgears representam aventura, mas também exploração; e Shout começa a entender que ser Capitão Omegahorn exige mais do que vencer batalhas. A série ainda depende demais do mistério de Reiji, mas sua expansão de lore e seus personagens secundários continuam mantendo a temporada de pé.
Nota: 7/10

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