Existe um ponto delicado em continuações de histórias encerradas, principalmente quando elas são, com falhas ou não, grandes sucessos entre uma legião de fãs apaixonados. Até onde a nostalgia sustenta a obra e em que momento é necessário seguir em frente. Jiraiya: O Novo Império dos Ninjas entende bem essa linha e escolhe não ficar preso a ela.
Publicada pela Editora JBC dentro do selo Henshin Universe, a obra assume o desafio de continuar a história de Jiraiya: O Incrível Ninja (世界忍者戦ジライヤ , 1988) com uma proposta mais madura. Para o público brasileiro que acompanhou a série na Rede Manchete, não se trata apenas de revisitar um herói, mas de encarar o que ele se tornou com o passar do tempo.
A trama avança anos após o fim da série e apresenta um mundo que seguiu em frente. O chamado Cartel das Sombras surge como uma ameaça mais concreta, menos fantasiosa e muito mais cruel. Aqui, o conflito deixa de ser apenas sobre honra ninja ou artefatos lendários e passa a envolver crime organizado, drogas e disputas de poder. Isso já define o tom da obra logo de início.

Toha Yamaji não é mais o jovem impulsivo de antes. Agora pai de família e líder de um novo império ninja, ele carrega não só responsabilidades, mas também desgaste. A ausência da Espada Olímpica não é apenas um detalhe de roteiro, mas um símbolo claro de que algo ficou para trás. O herói continua ali, mas não nas mesmas condições. E isso é explorado de forma eficiente.
O roteiro de Chris Tex aposta em uma construção que lembra o formato episódico de uma série, mas com liberdade para aprofundar consequências. Há mortes relevantes, decisões difíceis e um senso constante de que nem tudo pode ser resolvido com um golpe final. Em alguns momentos, a transição de cenas e o avanço do tempo parecem rápidos demais, o que pode causar estranhamento, mas isso não compromete o conjunto.
A arte de Santtos e Jhonny Domingos é um dos pontos mais sólidos da obra. O estilo mangá é bem definido, com atenção aos detalhes de figurino e ambientação. As cenas de ação funcionam bem, com impacto e fluidez, enquanto os momentos mais dramáticos conseguem transmitir peso sem exagero. As páginas coloridas merecem destaque por trazerem um acabamento que valoriza ainda mais a edição.
Outro acerto está na forma como a obra dialoga com o fã antigo sem se fechar para novos leitores. Existem referências diretas, inclusive segue à versão brasileira da dublagem, mas o roteiro também se preocupa em contextualizar o suficiente para que a história funcione por si só. Ainda assim, quem tem bagagem com a série certamente aproveita mais as camadas apresentadas.


Existe também um mérito importante na forma como a história amplia o próprio universo da franquia. A série original já deixava diversas possibilidades abertas, tanto ao sugerir um conflito maior entre clãs quanto ao posicionar seu protagonista como descendente de uma linhagem que extrapola a Terra, algo que hoje soa quase profético quando pensamos em obras como Boruto explorando ninjas ligados a origens alienígenas. O mangá entende esse potencial e começa a trabalhar essas ideias de forma mais direta.
Explorar melhor o lado místico da Família dos Feiticeiros, abrir espaço para ameaças além do planeta e mostrar personagens envelhecidos tentando manter vidas comuns enquanto tudo ao redor volta a desmoronar são escolhas que fortalecem a proposta. Existe um senso de continuidade real, não apenas estética. É como se o mundo nunca tivesse parado, apenas aguardado o momento de cobrar esse retorno.
Se em O Regresso de Jaspion (também da editora JBC) a proposta caminhava mais pelo fanservice com um acréscimo de discussões de temas atuais, aqui a sensação é diferente. Jiraiya: O Novo Império dos Ninjas prefere navegar na continuidade, sem ser tratado como uma espécie de graphic novel e one-shot tentando apresentar tudo de uma vez em um único volume. O tom é mais pesado, mais sombrio e, em muitos momentos, até melancólico. Isso fica evidente tanto nas escolhas narrativas quanto na forma como os personagens são tratados.


Nem tudo é perfeito. A ausência de alguns personagens clássicos pode incomodar alguns fãs e certas passagens poderiam ter mais desenvolvimento. Ao mesmo tempo, essas lacunas também funcionam como espaço para uma possível continuação, algo que o próprio final sugere de forma clara e que é esperado até hoje por quem gostou deste mangá.
No geral, a obra entrega exatamente o que se propõe. Não é apenas uma continuação, mas uma evolução, que respeita o passado sem se prender a ele e entende que o público cresceu, levando o personagem junto nesse processo. Jiraiya: O Novo Império dos Ninjas não é só um retorno, é um novo estágio e, talvez por isso, se consolide como uma das abordagens mais interessantes já feitas com um herói do gênero tokusatsu no Brasil, além de figurar entre as continuações mais relevantes de um super-herói japonês dentro do gênero até hoje.
Confira nosso review em áudio em nosso podcast sobre a obra:

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