Falar de O Regresso de Jaspion, lançado oficialmente em outubro de 2020 pela Editora JBC, é entender também o cuidado por trás de sua produção. Trata-se de um romance gráfico em estilo mangá produzido no Brasil, com roteiro de Fábio Yabu e desenhos de Michel Borges, além da participação de Marcelo Del Greco na edição e Edi Carlos Rodrigues na produção executiva. O projeto, oficial e licenciado pela Sato Company em parceria com a Toei Company, foi anunciado ainda em 2018 e passou por um longo processo de aprovação até chegar ao público, acumulando expectativa e alcançando destaque já em sua pré-venda no Brasil.
Como parte das comemorações desse retorno, a clássica música de abertura Ore ga Seigi da! Juspion (おれが正義だ!ジャスピオン, Eu Sou a Justiça! Jaspion)” também ganhou uma nova versão, agora com arranjos em estilo R&B e interpretação da cantora MIC. Produzida em Tóquio pelo selo Hyperbackers Label LLC, com arranjos de Renato Iwai e Tenyu Fukaya, a releitura reforça o caráter nostálgico do projeto ao mesmo tempo em que atualiza um dos elementos mais icônicos do herói, ampliando a experiência para além das páginas e conectando diferentes gerações de fãs.
Eu vejo esse mangá nacional muito mais como uma graphic novel fechada, aquele tipo de one shot que se resolve dentro de si, do que como o início de uma continuidade estruturada. Mesmo com ganchos claros para possíveis desdobramentos, a obra funciona melhor quando encarada como algo completo, com começo, meio e fim bem definidos, sem depender de futuras continuações para justificar sua proposta.


A história se passa décadas após os eventos da série clássica O Fantástico Jaspion (巨獣特捜ジャスピオン, 1985), trazendo o herói de volta à Terra após uma profecia indicar o possível retorno de ameaças ligadas a Satan Goss. A trama aposta menos em apresentar algo totalmente novo e mais em trabalhar consequências, revisitando personagens, eventos e impactos deixados pelas batalhas do passado.
Existe um choque evidente entre expectativa e proposta, e isso talvez seja o principal fator de divisão entre os leitores. Muitos esperavam uma nova aventura nos moldes clássicos, com estrutura episódica e vilões inéditos, mas o mangá opta por um caminho mais reflexivo, que mistura nostalgia, crítica social e releitura de elementos já conhecidos.
Ao avançar no tempo, a narrativa abandona a lógica do “monstro da semana” e investe em algo mais contínuo e denso. Há fanservice em abundância, referências para quem conhece o universo das séries do gênero exibidas no Brasil e decisões narrativas que mexem diretamente com personagens queridos, o que naturalmente pode gerar estranhamento em parte do público.


Esse contraste fica ainda mais evidente quando comparado ao mangá nacional de Jiraiya: O Incrível Ninja (世界忍者戦ジライヤ , 1988) , que foi lançado posteriormente, que segue uma linha mais direta de continuidade. Enquanto aquela obra expande o universo, Jaspion revisita o próprio legado, chegando até a sugerir conexões mais amplas dentro do universo dos metal heroes da Toei Company.
A história é grande em ideias, mas limitada pelo formato de volume único, o que impacta diretamente o desenvolvimento de pontos-chave da trama. Em vários momentos, fica a sensação de que havia espaço para aprofundar melhor situações e personagens, o que talvez, mesmo gerando incômodo em fãs que esperavam algo mais próximo da série de 1985, proporcionaria uma compreensão mais sólida das motivações apresentadas. Afinal, o tempo também passa para os heróis, e a cultura pop vem mostrando, especialmente nas produções de super-heróis, que nem tudo se resume a uma simples disputa entre o bem e o mal.
No campo dos personagens, algumas mudanças de personalidade chamam atenção, inclusive no próprio Jaspion e na Anri. As diversas transformações ao longo da série, muitas delas motivadas pela busca por audiência, já haviam construído um herói em constante evolução, permitindo acompanhar seu crescimento e amadurecimento do primeiro ao último episódio. Isso pode causar um estranhamento inicial, mas, dentro da proposta de passagem de tempo, essas alterações encontram justificativa, ainda que nem todas funcionem com a mesma força.

Visualmente, a obra se destaca com facilidade. Os desenhos de Michel Borges conseguem equilibrar fidelidade ao material original com as possibilidades do quadrinho, ampliando cenas, melhorando enquadramentos e entregando sequências que seriam inviáveis na televisão da época.
No texto e roteiro, o trabalho de Fábio Yabu busca, em diversos momentos, engrandecer a figura do herói, quase elevando Jaspion a um papel messiânico, como o salvador que partiu e retorna sendo visto com desconfiança, mas ainda carregando o peso de ser a última esperança. Nem todas as escolhas narrativas funcionam da mesma forma, e algumas decisões podem soar questionáveis, especialmente para quem esperava outro caminho, mas há também ideias que beiram a genialidade. Com o passar das releituras, fica a sensação de que Yabu e o time da JBC construíram uma obra com potencial cult, que funciona melhor do que muitas continuações, ao deixar em aberto décadas de histórias não contadas e um futuro em aberto para novas aventuras..
O Regresso de Jaspion talvez não tenha sido feito para ser uma unanimidade. Ainda assim, se consolida como uma obra relevante dentro do cenário nacional, que encontra força na nostalgia, mas vai além dela, entregando uma leitura que pode dividir opiniões, mas dificilmente passa despercebida e sem gerar boas discussões.
Confira nosso bate-papo em áudio em nosso podcast com os autores do mangá:

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