O fim da franquia Super Sentai e o nascimento do Project R.E.D. abriram um debate inevitável entre fãs no mundo todo. Durante 50 anos, desde Himitsu Sentai Gorenger, o Japão conviveu de forma praticamente ininterrupta com um Super Sentai no ar. Foram 49 séries que consolidaram os esquadrões coloridos como parte da cultura pop japonesa. No exterior, muitos conheceram essas produções tanto pelas exibições de séries originais quanto por meio de adaptações como Power Rangers.
O mesmo vale para a franquia Metal Hero, nome adotado oficialmente apenas em 1998, já em sua fase final. Mesmo após o encerramento, o legado permaneceu vivo por meio de especiais comemorativos e crossovers com Super Sentai e Kamen Rider, além dos filmes que reuniram os Policiais do Espaço da nova geração, especialmente o projeto Space Squad.


As duas franquias seguiram caminhos bem diferentes. Super Sentai se renovou mantendo uma base estrutural clara. Metal Hero não teve essa continuidade. E há um ponto fundamental que todo entusiasta precisa considerar: época de produção e público-alvo.
No Brasil, a maioria dos fãs de tokusatsu é formada por adultos que cresceram assistindo a essas séries na TV aberta. Parte desse público acompanhou a evolução das produções japonesas ao longo dos anos. Outra parte permaneceu emocionalmente ligada ao período em que assistia às séries na infância. Isso influencia diretamente na forma como cada um recebe uma nova produção.
Super Sentai teve cinco décadas para ajustar sua linguagem, atualizar sua estética e preparar seu público para mudanças graduais. Já Gavan não teve essa continuidade. Entre Gavan de 1982 e 2026 não houve uma sequência constante que mantivesse o personagem vivo na televisão. Houve especiais, participações e homenagens, mas não uma linha contínua.


Quando a Toei anunciou um novo Gavan, mexeu com um sentimento forte de nostalgia, especialmente no Brasil. Muitos imaginaram uma extensão direta da trilogia dos Policiais do Espaço, não necessariamente um renascimento completo da linha Metal Hero, algo que nem a Toei disse que faria. E com a exibição oficial no Brasil pelo TokuSato, a expectativa naturalmente aumentou.
Minha expectativa estava ligada ao momento atual da Toei. A empresa vem investindo em expansão global e, dentro da franquia Kamen Rider, apresentou nos últimos anos produções tecnicamente mais refinadas, principalmente com Kamen Rider Zeztz, mantendo a fórmula estabelecida desde Kamen Rider Kuuga. Ao encerrar uma tradição de 50 anos com Super Sentai e lançar uma releitura de Gavan, a Toei demonstra claramente uma estratégia de reposicionamento internacional.
Existe também um paralelo interessante. Kamen Rider nasceu apenas como Kamen Rider e, a partir de seu sucesso, gerou uma série de outros herois com mesmo nome. Gavan, por sua vez, em 1982, revitalizou o gênero e praticamente substituiu os próprios Riders através das séries seguintes desta linha. Agora, o nome Gavan parece ser usado como uma espécie de prefixo para uma nova linha de super-heróis. É uma aposta estratégica, arriscada, mas ancorada históricamente em movimentos que deram certo, até mesmo em outra produtora com seus Ultraman.




Até aqui ok, mas entre 1975 e 2026 acompanhamos a evolução constante de Super Sentai. Já entre 1982 e 2026 não tivemos essa preparação contínua para um novo Gavan. É natural que parte do público espere algo muito próximo da ambientação original.
E aqui entra um ponto delicado: a chamada síndrome da nostalgia. Trata-se de um apego intenso ao passado, com idealização de uma época que dificilmente será reproduzida. É algo humano. Todos nós temos em maior ou menor grau. No caso desta estreia, percebi muitas críticas negativas nos comentários no fandom braileiro, principalmente relacionadas à expectativa criada.
Alguns esperavam algo praticamente idêntico ao Gavan de 1982. Outros, como eu, esperavam algo realmente novo. E o que recebemos foi diferente do que a maioria imaginou.
Eu não esperava que a Toei entregasse, nesses dois primeiros episódios, algo que estruturalmente se aproxima muito de um Super Sentai dentro dos moldes atuais, sendo que uma das premissas era a inovação. A estética e alguns elementos remetem à trilogia dos Policiais do Espaço, mas a dinâmica, o ritmo e a construção lembram bastante o formato atual do Super Sentai. Em certos momentos, parece uma fusão entre Tokusou Sentai Dekaranger e Uchu Sentai Kyuranger, com a identidade, visual e estrutura inspirada em Gavan.
Observando a repercussão no Japão, a recepção inicial foi mista, porém interessante e próxima de parte do fandom brasileiro. Muitos elogiaram o resgate de elementos clássicos e a atualização visual. A ação e o visual do herói foram bastante comentados nas redes sociais japonesas. Por outro lado, houve críticas sobre excesso de informações no primeiro episódio, com muitos personagens e conceitos apresentados rapidamente. Alguns também consideraram a estrutura bastante tradicional, sem grandes surpresas narrativas.

Foram dois episódios bons e divertidos. Não fui surpreendido positivamente, e pelo que acompanhei, grande parte do público também não foi. Não atendeu totalmente às expectativas de quem cresceu com tokusatsu, mas talvez visulamente agrade um publico pouco famigerado com o visual da franquia Metal Hero.
E isto provavelmente seja a meta da Toei. A empresa busca expansão global, novos consumidores, novos assinantes de streaming para as plataformas que distribuem suas produções e um público disposto a investir em produtos e licenciamentos. Ficou claro que o foco nunca foi reconquistar quem assistiu Gavan nos anos 1980 ou 1990, mas atingir um novo público que possa se conectar com essa releitura, aproveitando um nome e uma ambientação da própria Toei e mantendo aquilo a que há muito tempo se apega em suas franquias, algo muito importante para o Japão: legado.
A série está apenas começando. Minha opinião pode mudar com o desenvolvimento da trama. Dois episódios não definem uma obra completa.
E é sempre importante lembrar que opinião é um direito individual. Ao compartilhar uma opinião, abrimos espaço para que outros também opinem sobre ela. É assim que funciona o debate saudável. Seria muito pior se todos pensássemos igual.
Essa é minha visão inicial sobre Gavan Infinity. Concordar, discordar e debater faz parte do processo. Até a próxima.

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