Falar de Toru Hirayama é revisitar não apenas a história do tokusatsu, mas também a trajetória de um homem profundamente marcado pelas experiências da vida. Nascido em 19 de março de 1929 e falecido em 31 de julho de 2013, Hirayama teve sua juventude atravessada pela Segunda Guerra Mundial, vivida em meio aos bombardeios de Tóquio, o que deixou cicatrizes emocionais duradouras. Em sua biografia, ele relembra cenas devastadoras, como corpos espalhados pelas ruas e a imagem de uma mãe protegendo o filho mesmo após a morte, algo que o fez chorar profundamente. Esse olhar empático ajudaria a moldar não apenas sua personalidade, mas também o tipo de histórias que contaria no futuro.
Essa vivência em um Japão destruído também alimentou um desejo muito claro. Ainda jovem, Hirayama imaginava a existência de alguém que pudesse salvar as pessoas daquele cenário de caos, uma figura heroica que surgia como resposta emocional ao sofrimento. Essa ideia de um salvador se tornaria um dos pilares de sua obra, refletindo diretamente na construção dos heróis que viriam depois.


Sua formação acadêmica revela um perfil inquieto. Passou por instituições como a Universidade de Tóquio, estudando estética e história da arte, o que contribuiu para desenvolver seu senso narrativo e visual. Ainda que tenha enfrentado dificuldades e dúvidas sobre seu próprio talento, essa base foi essencial para sua sensibilidade criativa, algo que mais tarde se tornaria uma marca registrada em suas produções.
A entrada de Hirayama na Toei Company acontece nos anos 1950, após sua formação universitária, quando decide seguir o caminho do cinema. Ele inicia sua carreira como assistente de direção no estúdio de Kyoto, participando de dezenas de produções, especialmente filmes de época. Esse período foi fundamental para sua formação prática e também para compreender a lógica industrial do entretenimento japonês. Mais tarde, já transferido para o setor de televisão da Toei, encontraria o espaço ideal para desenvolver suas ideias.
Um marco importante dessa trajetória foi sua ligação com Robô Gigante (ジャイアントロボ , 1967). A produção ganhou uma versão live action poucos meses após sua concepção original e se tornou o primeiro tokusatsu com robô gigante da Toei. Hirayama esteve entre os profissionais envolvidos nesse momento de transição e consolidação, ajudando a estruturar um modelo que influenciaria diretamente o gênero nos anos seguintes.


Existe uma passagem marcante no mangá Os Homens que Fizeram Kamen Rider (仮面ライダーをつくった男たち) que ilustra bem seu lado humano. Durante a exibição do episódio final de Robô Gigante, Hirayama chorou ao ver o robô sendo destruído. Ele imaginava um desfecho diferente, em que o herói continuaria convivendo com as crianças, reforçando sua visão mais sensível das narrativas. Esse episódio sintetiza bem o tipo de criador que ele era, alguém emocionalmente conectado às próprias histórias.
Tive a oportunidade de ler sua biografia e também o mangá Os Homens Que Fizeram Kamen Rider, que mostram toda sua importância na criação de Kamen Rider. A obra, com roteiro de Katsumi Oda e arte de Kenichi Muraeda, apresenta bastidores, entrevistas e dramatizações que reforçam o papel central de Toru Hirayama nas primeiras fases da franquia. Mais do que um produtor, Hirayama foi um dos pilares criativos na consolidação do conceito do herói solitário, trabalhando diretamente com Shotaro Ishinomori para transformar ideias em um fenômeno televisivo.



Esse envolvimento se torna ainda mais evidente quando observamos a criação de Kamen Rider (仮面ライダー) em 1971. Hirayama ajudou a estruturar não apenas a produção, mas o próprio DNA da obra, estabelecendo um tom mais dramático, sombrio e humano que diferenciava a série de outros programas infantis da época. A ideia de um herói que nasce do sofrimento, transformado contra a própria vontade e condenado a lutar carregando esse peso, dialogava diretamente com experiências pessoais do produtor, marcadas pela doença, pela guerra e pela constante sensação de fragilidade humana descritas em sua autobiografia. Durante a exibição, momentos críticos como o acidente de Hiroshi Fujioka colocaram a continuidade da série em risco, mas Hirayama tomou decisões fundamentais, como a criação do segundo Rider, transformando uma crise de produção em um dos conceitos mais importantes da franquia. A solução não apenas salvou a série, como também abriu caminho para a ideia de múltiplos Riders e para a expansão do universo heroico da Toei nas décadas seguintes.
A visão criativa de Hirayama também moldou diversas produções que ajudaram a definir o tokusatsu televisivo dos anos 1970. Em séries como Kikaider (人造人間キカイダー, 1972), Kikaider 01 (キカイダー01, 1973), Inazuman (イナズマン, 1973) e Akumaizer 3 (アクマイザー3, 1975), ele reforçou elementos que se tornariam marcas registradas da Toei: heróis atormentados, monstros visualmente marcantes, organizações malignas grandiosas e histórias que equilibravam ação com conflitos emocionais. Mesmo em produções voltadas ao público infantil, Hirayama insistia em adicionar temas como solidão, responsabilidade, sacrifício e identidade, criando personagens que permaneciam na memória do público muito além das cenas de luta ou transformação.

Seu impacto se estendeu ainda mais com a criação e consolidação do Super Sentai. Como produtor de Himitsu Sentai Gorenger (秘密戦隊ゴレンジャー , 1975), Hirayama ajudou a estabelecer a base narrativa da franquia, combinando ação em equipe, espionagem, tecnologia e personalidade distinta para cada integrante do grupo. Posteriormente, trabalhos como J.A.K.Q. Dengekitai (ジャッカー電撃隊, 1977) e Battle Fever J (バトルフィーバーJ, 1979) ampliaram esse conceito, especialmente com a introdução definitiva dos robôs gigantes no formato moderno de Super Sentai. Hirayama ainda supervisionou projetos ousados como o Spider-Man (スパイダーマン, 1978) japonês, cuja influência seria decisiva para o futuro do gênero.
Mais do que um produtor, Toru Hirayama foi um dos grandes arquitetos do entretenimento heroico da Toei, ajudando a transformar o tokusatsu em um fenômeno cultural duradouro e reconhecido mundialmente. Seu trabalho não apenas deu origem a séries e franquias mais duradouras, como também ajudou a definir o espírito do tokusatsu moderno, influenciando gerações de criadores e consolidando um modelo narrativo que ainda hoje ecoa em diversas produções. Foi também Toru Hirayama quem trouxe Shotaro Ishinomori do projeto de Kamen Rider e do próprio universo do tokusatsu televisivo da Toei, iniciando uma parceria criativa que se tornaria uma das mais importantes da história do entretenimento japonês. Juntos, ajudaram a construir uma nova visão para os heróis japoneses, marcada por humanidade, drama e emoção.
Confira nosso review em áudio e nosso podcast sobre algumas produções que tiveram envolvimento de Toru Hirayama:

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