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Além do tokusatsu: ‘Kage no Gundan’, a épica saga ninja de Sonny Chiba

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Quando o gosto pelo gênero tokusatsu transcende as franquias e séries infanto juvenis mais conhecidas no Brasil, é possível descobrir uma enorme quantidade de produções fascinantes que dialogam diretamente com os elementos que tornaram o gênero tão popular. Foi justamente nessa busca por novas referências que encontrei uma obra que, apesar de não ser oficialmente classificada como tokusatsu, reúne praticamente tudo aquilo que os fãs do gênero apreciam: explosões, acrobacias, cenas de ação elaboradas, lutas espetaculares e personagens carismáticos. Trata-se de Kage no Gundan, ou Hattori Hanzo: Kage no Gundan (服部半蔵 影の軍団), série exibida em 1980 que mergulha nas intrigas políticas do Japão da Era Edo (1603–1868) através das aventuras do lendário clã Iga e de um dos nomes mais famosos da história e do folclore japonês, Hattori Hanzo.

A produção tem como grande estrela Sonny Chiba, um nome fundamental para a cultura pop japonesa e para a própria história do tokusatsu. Antes de se tornar um astro do cinema de ação, Chiba interpretou o segundo Nana-iro Kamen (七色仮面) em 1959, um dos primeiros heróis mascarados da televisão japonesa. Anos depois, fundaria a lendária Japan Action Club (JAC), organização responsável por formar dublês, atores e coordenadores de ação que marcariam profundamente o tokusatsu nas décadas seguintes. A influência da JAC pode ser sentida em praticamente cada episódio de Kage no Gundan, que apresenta sequências de combate dinâmicas e um trabalho corporal muito superior ao que normalmente se via na televisão japonesa da época.

Por essa razão, é perfeitamente possível definir a série como um verdadeiro “tokusatsu para adultos”. Enquanto os heróis coloridos enfrentavam monstros e organizações malignas em programas voltados para o público jovem, Kage no Gundan utilizava os mesmos recursos visuais e técnicos para construir uma narrativa mais sombria, repleta de conspirações políticas, traições e disputas de poder. A presença de profissionais ligados ao gênero reforça ainda mais essa percepção. O elenco e a equipe contam com nomes que se tornariam extremamente familiares aos fãs de tokusatsu, como Junichi Haruta, que anos depois interpretaria MacGaren em O Fantástico Jaspion (巨獣特捜ジャスピオン, 1985), além de Hiroyuki Sanada, um dos maiores talentos revelados pela Japan Action Club e que posteriormente construiria uma sólida carreira internacional.

Ao longo de suas temporadas, a série reuniu uma verdadeira seleção de estrelas da ação japonesa. Entre os nomes que passaram pela produção estão Etsuko Shihomi, uma das maiores atrizes de filmes de artes marciais do Japão, Kenji Ohba, eternizado como Gavan em Policial do Espaço Gavan (宇宙刑事ギャバン, 1982), Makoto Sumikawa, que interpretaria a inesquecível Lady Diana em Spielvan (時空戦士スピルバン, 1986), além de Hikaru Kurosaki, o ator por trás de Jaspion. A presença desses e outros artistas transformava cada temporada em uma vitrine do talento que dominaria o tokusatsu durante toda a década de 1980.

A história de Kage no Gundan acompanha o lendário líder dos ninjas de Iga em meio às disputas políticas do início do governo do quarto xógum Tokugawa, Ietsuna. Após anos de paz terem reduzido a importância dos ninjas para o governo, Hanzo e seus homens vivem ocultos entre a população, sobrevivendo como comerciantes, artesãos e trabalhadores comuns. No entanto, conspirações envolvendo membros do xogunato, clãs rivais e interesses políticos acabam trazendo novamente os guerreiros das sombras para o centro dos acontecimentos. Ao longo da série, Hanzo e seu grupo enfrentam traições, guerras secretas, missões de espionagem e conflitos contra os ninjas de Koga, enquanto tentam preservar seus ideais em uma época em que a própria existência dos shinobi parecia estar chegando ao fim.

A franquia foi um enorme sucesso para a Toei, resultando em uma série de continuações produzidas ao longo dos anos 1980. Iniciada em 1980 com Kage no Gundan, a saga recebeu diversas sequências, incluindo Kage no Gundan II, III, IV, Bakumatsu-hen e outras produções derivadas, consolidando Sonny Chiba como um dos maiores intérpretes de ninjas da televisão japonesa. Cada nova temporada expandia o universo dos clãs ninja, introduzindo novos personagens, conflitos políticos e diferentes períodos históricos, sempre mantendo o foco na ação intensa e nas intrigas que se tornaram a marca registrada da franquia.

Boa parte desse impacto visual foi possível graças ao trabalho de profissionais especializados em efeitos especiais e cenas de ação. Entre eles estava a equipe de Nobuo Yajima, conhecido pelos fãs de tokusatsu como um dos principais nomes por trás dos efeitos especiais de diversas produções da Toei. Embora a série fosse essencialmente um drama histórico, muitos de seus recursos de filmagem, explosões controladas, armadilhas, efeitos práticos e coreografias remetiam diretamente às técnicas utilizadas em produções de super-heróis e monstros gigantes. Em vários momentos é possível identificar cenas que parecem verdadeiros protótipos do que seria utilizado posteriormente em séries tokusatsu dos anos 1980.

Mais de quatro décadas após sua estreia, Kage no Gundan permanece como uma das produções mais importantes da televisão japonesa quando o assunto é ação e narrativa histórica. A série ajudou a redefinir a forma como os ninjas eram retratados na TV, combinando fatos históricos, lendas populares, intrigas políticas e sequências de ação impressionantes para a época.

A influência da obra ultrapassou as fronteiras do Japão. Um de seus admiradores mais conhecidos era o cineasta Quentin Tarantino, fã declarado de Sonny Chiba e da série. Ao produzir Kill Bill (2003), Tarantino prestou uma homenagem direta à série ao escalar Chiba para interpretar uma versão do lendário Hattori Hanzo. O diretor também convidou Kenji Ohba para participar da produção, demonstrando a admiração que tinha pelos artistas japoneses ligados a estas produções. Décadas depois de sua estreia, Kage no Gundan continua sendo lembrada não apenas como um clássico dos dramas de época, mas como uma das mais influentes produções de ação da televisão japonesa.

Confira também nossa resenha em áudio em nosso podcast, na qual exploramos a trajetória de Sonny Chiba, a história da Japan Action Club e sobre a série Kage no Gundan.

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