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O caminho até o segundo ‘Kamen Rider’

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Quem acompanha o gênero tokusatsu ou pesquisa sobre a franquia Kamen Rider já está familiarizado com o acidente de moto sofrido pelo ator Hiroshi Fujioka, intérprete de Takeshi Hongo, protagonista da primeira série Kamen Rider (仮面ライダー, 1971), durante as gravações dos episódios 9 e 10, que foram filmados simultaneamente. Em decorrência disso, o último episódio com material inédito gravado pelo ator foi o episódio 10.

Como alternativa para sua ausência, nos episódios 11, 12 e 13 foram utilizadas soluções como a combinação de dublês de corpo trajados como o protagonista e a reutilização de recortes de cenas pré-gravadas de episódios anteriores. Além disso, nesses episódios há predominantemente a aparição do Kamen Rider já transformado, com a voz sendo feita por Rokuro Naya (que já havia feito as partes pendentes de voz nos episódios 9 e 10 que Hiroshi Fujioka não conseguiu terminar, já que as vozes e efeitos sonoros eram feitos posteriormente em estúdio, prática comum durante a Era Showa, por não haver sistema de captação de áudio nos sets de gravação).

Para suprir as cenas de ação civis, foi introduzido, no episódio 11, o personagem Kazuya Taki (Jiro Chiba), um agente do FBI. No entanto, a partir do episódio 14, decidiu-se alterar o protagonista, com a entrada de Hayato Ichimonji (Takeshi Sasaki), o segundo Kamen Rider (Nigo)da série.

Entretanto, o caminho até o segundo Kamen Rider não foi tão fácil, levando a muitas discussões e a diversas alternativas antes da decisão final. Uma medida desesperada cogitada pela equipe de produção era que Hiroshi Fujioka ficasse deitado em sua cama de hospital, com uma cortina azul atrás dele, para dar a impressão de que estava pilotando uma moto. Porém, isso foi imediatamente rejeitado por seu médico, que afirmou: “De jeito nenhum!”.

Seu médico havia dito que, pela gravidade de suas lesões, ele precisava de repouso absoluto. Até o menor movimento impediria a cicatrização. Além disso, mesmo que aparentasse estar suportando, sentia tanta dor que nem conseguiria dizer suas falas.

Outro caminho cogitado foi o de matar o protagonista e apresentar um novo, decisão que o autor Shotaro Ishinomori acabou seguindo em seu mangá publicado na Shonen Magazine. Porém, para a série de TV, o produtor Toru Hiraiyama foi contra essa ideia, alegando que matar o herói poderia transmitir um sentimento de desesperança às crianças que assistiam. Na prática, Toru Hiraiyama acreditava que Hiroshi Fujioka se recuperaria em breve e pretendia tê-lo de volta ao programa.

Enquanto Toru Hiraiyama se reunia com o produtor Seiji Abe, os gerentes de produção Hitoshi Ishida e Masatoshi Kono, e os diretores Minoru Yamada e Yusaku Uchida para discutir contramedidas, os assistentes de direção Takao Nagaishi, Masahiro Tsukada e Ajinobu Umeda foram instruídos por Yusaku Uchida a escrever, com urgência, um roteiro que pudesse ser filmado sem a presença de Hiroshi Fujioka e que permitisse o uso de imagens de arquivo.

Três roteiros foram enviados e, dentre eles, o do Monstro Gebacondor, escrito por Takao Nagaishi, foi selecionado. Também é dito que o roteiro de Ajinobu Umeda supostamente apresentava um Rider falso e que posteriormente serviu de base para o episódio do Shocker Rider nº 1. O episódio 11 contou com a introdução de Kazuya Taki para suprir a ausência de um herói civil durante o período em que Takeshi Hongo esteve fora.

O roteiro do episódio do monstro “Yamogelas” já estava parcialmente escrito para ser o episódio 11, mas foi substituído pelo de Gebacondor, que foi filmado às pressas e posteriormente refeito por Mari Takizawa, sendo lançado como o episódio de número 12. Corrobora com isso o fato de que Taki não aparece nesse décimo segundo episódio (mesmo tendo sido incluído no anterior), embora todos os integrantes do bar Snack Amigo apareçam: Ruriko, Tachibana, Hiromi e Shiro. Isso ocorre porque o personagem ainda não existia quando esse roteiro foi originalmente escrito.

Além do aumento da aparição do Kamen Rider já transformado, é nesse episódio específico que se evidenciam os artifícios de produção e edição utilizados para suprir a ausência física de Takeshi Hongo: foram usados dublês de corpo e cenas reaproveitadas de outros episódios, com jogos de câmera e edição.

Inclusive, esse episódio dá grande destaque a Ruriko (Chieko Maki) na investigação da Shocker. Ela é a protagonista. E, embora ainda apareça no episódio seguinte (13), este foi, para mim, sua “grande despedida”, devido à sua atuação e destaque, já que a ausência do protagonista e a não aparição de Kazuya Taki lhe conferiram o protagonismo. Vemos aqui uma Ruriko mais séria e até um pouco mais sombria enquanto investiga a Shocker. Há uma pequena sequência em que ela enfrenta dois combatentes da organização, sendo possível vê-la rindo em um take após golpear o dublê.

O episódio seguinte (nº 13) é o último dela. Próxima de Hiroshi Fujioka, a atriz Chieko Maki, que interpretava Ruriko, declarou que ficou profundamente abalada com o ocorrido. Na série, é apenas mencionado que Ruriko seguiu Takeshi Hongo para a Europa, a fim de ajudá-lo na luta contra a organização Shocker. Nenhum outro detalhe sobre seu paradeiro foi revelado oficialmente, embora houvesse, originalmente, no roteiro, uma cena do resgate de Hayato Ichimonji (Kamen Rider Nigo) pelo Kamen Rider Ichigo e a partida definitiva de Ruriko. Entretanto, o comitê de produção decidiu cortar explicações e partir diretamente para a “Fase Nigo”, sem muitos rodeios, com receio de que isso afetasse a popularidade da série. A saída da atriz foi outra perda significativa para a produção, especialmente para Toru Hiraiyama, que a havia escalado pessoalmente.

Sobre Taki, o agente do FBI que aparece para suprir o elemento de ação civil deixado pela ausência do ator principal, a intenção dos produtores era que ele fosse uma “ponte” entre os espectadores e o universo da série. Apesar de não se transformar, ele enfrentava com coragem a ameaça da Shocker.

Quando o ator Jiro Chiba foi escalado, o produtor Toru Hiraiyama o instruiu a ser o mais descolado possível, mas sem parecer mais forte que Takeshi Hongo (e posteriormente Hayato Ichimonji). Assim, por mais que Kazuya Taki enfrentasse grandes batalhas contra os combatentes da Shocker, o resultado final deveria vir por meio do Kamen Rider.

Mencionar o FBI, uma organização estrangeira real, fazia parte do conceito dos produtores de aproximar o universo da série do cotidiano. O posterior acréscimo de diversas filiais da Shocker ao redor do mundo evocava um alcance global, reforçando a ideia de que o universo de Kamen Rider estava conectado à realidade. Esse foi um dos pontos de preocupação genuína dos produtores.

Nesse ínterim, a única solução possível era a introdução de um novo Kamen Rider. O ator Tomokazu Miura foi o primeiro cogitado para assumir o papel, porém recusou, apesar das ponderações de sua agência, por se tratar de um programa infantil, algo que preocupava atores na época, já que produções desse tipo eram vistas como “de segunda classe”.

O nome seguinte cogitado foi o de Takeshi Sasaki, que havia participado anteriormente de Judo Ichijokusen (柔道一直線, 1969–1971), da mesma equipe de produção de Kamen Rider. Inicialmente, ele também relutou em aceitar, pois era amigo de Hiroshi Fujioka desde a época em que estudavam juntos em uma companhia de teatro. Nas palavras de Takeshi Sasaki: “Não queria me aproveitar da lesão dele para conseguir um papel principal”.

Entretanto, após muita insistência, o diretor Yusaku Uchida o convenceu, dizendo: “Quero que você faça isso para salvar o Hiroshi Fujioka. Por favor, até que a lesão dele sare”. Assim, com a proposta de ser uma substituição temporária até o retorno do protagonista original, Hayato Ichimonji, o Kamen Rider nº 2 (Kamen Rider Nigo), estreou no episódio 14, exibido em 3 de julho de 1971.

Foi então preparado um “novo arco” para a introdução do herói. Diversas adições e alterações foram feitas para manter o interesse do público infantil. Novas atrizes coadjuvantes surgiram, e o tom dos roteiros mudou significativamente, deixando de lado o mistério e o suspense do primeiro arco em favor de uma abordagem mais aventuresca, alinhada à personalidade de Hayato Ichimonji, mais alegre e positiva em comparação ao melancólico e sério Takeshi Hongo.

Ambos possuíam visões de mundo e personalidades distintas. O primeiro Kamen Rider era mais introspectivo, melancólico e sério, carregando o peso de sua dualidade e da perda de sua humanidade como um humano remodelado. Já o segundo Kamen Rider era mais bonachão, extrovertido, carismático e despojado, trazendo episódios com momentos mais leves e descontraídos.

Outra adição importante da segunda fase foi a icônica pose de henshin. Hayato Ichimonji foi o primeiro a utilizá-la, já que o Kamen Rider Ichigo (o primeiro) ainda não possuía uma pose de transformação definida. Ele geralmente utilizava as rajadas de vento geradas por sua moto Cyclone em movimento para girar a hélice de seu cinto Typhoon, que funcionava à base de energia eólica.

Já o Kamen Rider Nigo executava uma série de movimentos com os braços e bradava a palavra henshin. Essa adição foi feita pelos produtores Toru Hiraiyama e Yoshinori Watanabe, que acreditavam que a ideia teria impacto suficiente para manter o interesse das crianças, mesmo após a troca de protagonista.

Quanto à palavra, Yoshinori Watanabe se inspirou no livro A Metamorfose (Die Verwandlung, 1915), de Franz Kafka, que foi lançado no Japão com o título Henshin. O termo está diretamente ligado à ideia de transformação corporal ou transmutação de uma criatura em outra, encaixando-se perfeitamente no conceito da série.

Já a pose em si teve influência de movimentos de judô de Kenichi Sakuragi, vistos no filme Yawara no Hoshi (ou Ju no Hoshi, 1970). Tanto o filme quanto a série contaram com os dublês da Ohno Kenyuukai, sendo as cenas de ação coordenadas por Kazutoshi Takahashi.

Curiosamente, ocorreu justamente o contrário do que os produtores temiam. A série tornou-se cada vez mais popular com a introdução dos novos elementos. Em retrospecto, no início de Kamen Rider, a equipe de produção e a emissora não acreditavam plenamente no sucesso da série. Em sua estreia, a audiência foi de apenas 8% na região de Kanto (Tóquio e arredores), enquanto na região de Kansai (Osaka, Kyoto e arredores) alcançou 20% nos episódios iniciais.

Com o tempo, porém, a popularidade cresceu gradualmente e, a partir da introdução do Kamen Rider Nigo, os índices de audiência dispararam, transformando a série em um fenômeno social. Isso impulsionou o chamado Henshin Boom e revitalizou as produções de efeitos especiais no Japão, que estavam em baixa. A série passou a manter médias de audiência em torno de 20% em Kanto e 25% em Kansai. A influência sobre o público infantil foi enorme, tornando comum a brincadeira de “ser um Kamen Rider”.

Comercialmente, o grande sucesso veio em 1972, com o lançamento de inúmeros produtos, como os snacks da Calbee acompanhados de cards da série, que se tornaram um fenômeno de vendas. Ainda nesse ano, foi lançado o cinto de brinquedo Henshin Belt Typhoon, com luz e movimento, pela Poppy (atual Bandai), que também alcançou enorme sucesso, além dos bonecos de vinil dos personagens. A receita com direitos de comercialização da marca Kamen Rider chegou a superar franquias anteriores de grande sucesso, como Astro Boy, Obake no Q-Taro e Ultraman.

Por fim, foi na fase “Nigo” que os índices de audiência e popularidade atingiram novos patamares. A febre do henshin teve sua ascensão meteórica nesse período, o que não apenas garantiu a continuidade da série original, como também estabeleceu as bases para a futura franquia Kamen Rider.

Fontes:

  • Livro Ultraman Vs. Kamen Rider: Megahero Hikatokage no Shinwa
  • Livro Kamen Rider Daikenkyu
  • Livro Fumetsu no Hero Kamen Rider Densetsu
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