Quem acompanha com mais afinco o gênero tokusatsu inevitavelmente esbarra em termos como as eras do Japão, especialmente a Era Showa (1926–1989), a Era Heisei (1989–2019) e a Era Reiwa (2019–presente). Para muitos fãs, esses nomes já fazem parte do vocabulário básico, mas quando a proposta é ir além da superfície e realmente entender as origens do gênero, mergulhar nesses períodos se torna essencial.
Foi exatamente esse o movimento aqui do Tokusatsu.com.br. Deixar de apenas comentar séries exibidas no Brasil e suas franquias para buscar um entendimento mais amplo do tokusatsu dentro do seu contexto histórico. Nesse caminho, a Era Showa ganha enorme destaque, afinal foi nesse período que o termo nasceu e onde surgiram muitas das franquias que se tornaram cultuadas por gerações de fãs brasileiros.

Uma leitura muito interessante para compreender esse cenário é o mangá Showa: Uma História do Japão, publicado no Brasil pela Editora Devir. Este primeiro volume, que cobre os anos de 1926 a 1939, é conduzido pela visão de seu autor, o mangaká Shigeru Mizuki (1922–2015), um dos nomes mais importantes da cultura japonesa. Conhecido por obras como GeGeGe no Kitaro e por seu trabalho de resgate do folclore dos yokai (demônio, espírito, ou monstro), Mizuki também teve uma forte vertente documental em sua carreira, registrando histórias, lendas e o cotidiano do Japão em transformação. Veterano da Segunda Guerra Mundial, experiência na qual perdeu um braço, ele carrega para sua obra uma visão profundamente humana, crítica e vivida dos acontecimentos, algo que diferencia sua narrativa de um simples registro histórico.
O grande diferencial está na forma como o autor equilibra o pessoal e o histórico, já que Shigeru Mizuki não apenas apresenta fatos, mas os humaniza ao inserir suas próprias experiências enquanto detalha eventos políticos e sociais, criando uma leitura que transita de maneira natural entre o documental e o íntimo; somado a isso, a arte e o texto são extremamente competentes, com um traço que alterna entre cenários realistas ricos em detalhes e personagens mais caricatos, gerando um contraste que funciona muito bem e que, aliado à narrativa, entrega uma experiência tão envolvente que faz muitos documentários dramatizados parecerem superficiais em comparação.



Mais do que um relato sobre fatos, a obra se transforma em uma verdadeira aula sobre um dos períodos mais tensos e complexos do Japão, utilizando elementos autobiográficos para guiar o leitor por um país que caminhava rumo ao conflito enquanto enfrentava crises econômicas, mudanças sociais e uma crescente militarização.
Outro ponto importante é a forma como Shigeru Mizuki não suaviza os acontecimentos, abordando temas delicados com um olhar crítico e reflexivo que reforça o peso histórico da narrativa. No fim das contas, este volume se torna leitura praticamente obrigatória para quem deseja entender não só o Japão do século XX, mas também as bases culturais que influenciaram o surgimento e a evolução do tokusatsu. O livro conta ainda com um texto final de Rafael Machado Costa, doutor e mestre em História, Teoria e Crítica de Arte, do canal Ilha Kaijuu, agregando ainda mais profundidade e contextualização à obra.
Mais sobre GeGeGe no Kitaro:
GeGeGe no Kitaro (ゲゲゲの鬼太郎), originalmente intitulado Hakaba Kitaro (墓場鬼太郎), é uma obra criada por Shigeru Mizuki que ajudou a popularizar os yokai na cultura pop japonesa. Inspirado em histórias folclóricas do início do século XX apresentadas em kamishibai, o título atravessou gerações com adaptações em anime, games e produções live-action, tornando-se uma referência duradoura dentro do entretenimento japonês.
A adaptação em live-action de 1987, GeGeGe no Kitaro Yokai Kiden: Mateki Elohim (妖怪奇伝ゲゲゲの鬼太郎 魔笛エロイムエッサイム), é frequentemente considerada no Japão como parte do gênero tokusatsu, graças ao uso de efeitos especiais práticos, ação coreografada e criaturas sobrenaturais inseridas no mundo real. Produzida pela Toei Company. A produção teve nome envolvidos como o de Susumu Yoshikawa, ligado a franquias como Super Sentai e Metal Hero, o que reforça essa identidade, visível tanto nos efeitos especiais quanto na linguagem visual típica do gênero.


Já a versão cinematográfica de 2007, estrelada por Eiji Wentz, que interprettou o vilão Cobra em Kamen Rider The First (仮面ライダー THE FIRST, 2005), no papel de Kitaro, representa uma nova tentativa de levar o personagem ao grande público, com uma abordagem mais moderna e acessível. Diferente da produção de 1987, essa adaptação enfatiza efeitos digitais e uma estética mais voltada ao cinema contemporâneo, ampliando o alcance da obra para novas gerações, mas mantendo elementos clássicos do universo de Mizuki, como a presença dos yokai e o equilíbrio entre fantasia, humor e temas sombrios que sempre marcaram a franquia.



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