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O episódio de ‘O Regresso de Ultraman’ que afastou seu diretor

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Entre os episódios mais comentados da franquia Ultraman, no Japão, está o 33 de O Regresso de Ultraman (帰ってきたウルトラマン, 1971), intitulado O Domador de Monstros e o Garoto (怪獣使いと少年). Ele é marcado não apenas pela sua temática, mas também pelo boato que circulou no Japão e na internet de que teria afastado seu diretor, Shouhei Toujou, da produção.

Na trama do episódio, um alienígena conhecido como Alien Mates, interpretado por Kenjiro Uemura, chega à Terra com a missão de observar o clima e os níveis de poluição do planeta, visando estabelecer uma aliança pacífica entre sua espécie e a humanidade. No entanto, após algum tempo em solo terrestre, ele é gravemente afetado pela intensa poluição, sendo forçado a assumir a forma de um humano até recuperar suas forças. Ao mesmo tempo, essa mesma poluição o impede de localizar sua nave espacial, que continha o kaiju Muruchi, a ser utilizado em caso de necessidade.



Durante sua busca pela nave, cavando buracos pela região, Mates acaba adotando um pequeno órfão chamado Ryou Sakuma (Nihei Hideya), passando a criá-lo como se fosse seu próprio filho. Apesar do forte laço afetivo entre os dois, ambos passam a ser alvo de preconceito e hostilidade por parte dos moradores locais, que temem que sejam alienígenas com intenções de conquistar a Terra. A desconfiança cresce a ponto de uma multidão enfurecida se formar com o objetivo de matá-los, movida apenas por suspeitas.

Hideki Go (Jiro Dan) tenta defendê-los com todas as suas forças, mas a situação foge do controle quando um policial abre fogo e acaba matando o Alien Mates. Como consequência, sua nave libera Muruchi, a arma biológica. Após a derrota do monstro por Ultraman Jack, a espécie de Mates decide não retornar mais à Terra, mantendo distância até que o filho do alienígena original apareça durante os eventos de Ultraman Mebius (ウルトラマンメビウス, 2006).

O roteirista Shozo Uehara inspirou-se em episódios de discriminação no Japão. O Alien Mates foi concebido como uma metáfora para os coreanos residentes no país, enquanto o garoto Ryou representava o povo Ainu, de Hokkaido. Após o Grande Terremoto de Kanto, espalharam-se falsos rumores de que os coreanos planejavam derrubar o governo, o que provocou agitação social e levou à formação de grupos de vigilantes que passaram a assassinar coreanos. O governo japonês declarou lei marcial e ordenou a censura de informações sobre os crimes. Estima-se que mais de 6 mil coreanos tenham sido mortos, embora muitos políticos e grupos de direita no Japão neguem ou minimizem o massacre, reconhecendo apenas cerca de 250 mortes. A ideia do roteiro surgiu da reflexão sobre como um boato pode se espalhar e gerar reações extremas.

Mesmo com a estreia promissora de Shouhei Toujou como diretor, o clima nos bastidores ficou tenso. Ele buscou dar ao episódio um tom mais realista e dramático, gravando muitas cenas em locações externas e até prolongando as filmagens sob chuva intensa, o que acabou atrasando o cronograma de produção. O resultado foi considerado sombrio demais pela TBS, que se incomodou especialmente com a sequência em que o Alien Mates era morto. No roteiro original, os moradores o atacariam com lanças, da mesma forma que os coreanos foram atacados por vigilantes japoneses com lanças de bambu em 1923, mas a emissora vetou a ideia por considerá-la brutal. Mesmo na versão revista, em que a polícia dispara contra o alienígena, a TBS determinou que não houvesse sangue em cena, exigindo cortes e refilmagens.

Para amenizar o impacto, novas cenas foram inseridas, como a da atendente da padaria, que não existia no roteiro inicial. Ainda assim, os executivos resistiam em aprovar o episódio. Jin Hashimoto, produtor da série, relatou sobre a exibição-teste: “Eu fui o único da TBS presente. Depois de assistir, fiquei extremamente irritado. A equipe se esforçou para ajudar Toujou, mas a presença do diretor não estava clara na tela. Perguntei a ele sobre isso, mas ele, sendo de poucas palavras, respondeu pouco. A atmosfera ficou estranha, quase constrangedora”. O produtor só conseguiu liberar a exibição aceitando que Shozo Uehara fosse suspenso temporariamente como roteirista e Toujou rebaixado a assistente de direção.

Pouco depois, Toujou foi transferido para a recém-lançada série Mirrorman (ミラーマン, 1971). O episódio seguinte, Uma Vida Sem Perdão (許されざるいのち), foi dirigido por Eizo Yamagiwa e escrito por Toshiro Ishido.

O episódio ganhou uma continuação muitos anos depois em Ultraman Mebius, no 32º episódio, O Legado do Mestre de Monstros (怪獣使いの遺産). A história acompanha o jovem Alien Mates Bio, que chega à Terra em busca de paz entre sua espécie e os humanos. Após ser baleado acidentalmente por Ryu (Masaki Nishina), Bio enfurece-se e convoca seu disco voador para atacar a cidade, forçando Mirai (Shunji Igarashi) a se transformar em Ultraman Mebius. Durante o conflito, descobre-se que o ódio de Bio vem da morte de seu pai, um Alien Mates original, pelas mãos de humanos décadas antes. O desfecho traz esperança quando uma professora lembra Bio do garoto que sonhava unir humanos e Alien Mates em amizade; comovido, Bio se rende, destrói Zoa Muruchi e retorna ao seu planeta com uma nova visão sobre a humanidade, enquanto o legado de amizade do garoto permanece vivo.

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