A proposta de trabalhar a figura do “sexto membro” dentro da estrutura clássica da franquia Super Sentai da Toei, é um dos pontos mais interessantes de Fighting Pose, HQ de Francisco Mauriz e publicada pela Editora Kimera. O conceito do guerreiro extra que surge para mudar completamente o rumo da batalha é algo tradicional no gênero, tanto nas produções japonesas quanto em suas adaptações ocidentais, e aqui isso ganha uma abordagem própria. Em vez de apenas repetir fórmulas, a obra utiliza essa influência para construir um universo original, onde a guerra já terminou, mas os conflitos continuam existindo de outras formas.
A história apresenta um planeta Terra que passou anos enfrentando um império espacial liderado pelo imperador Boulevak. Para sobreviver, foi criada a força dos Ginga-Warriors, guerreiros equipados com armaduras tecnológicas, espadas de energia, armas a laser e até mesmo um robô gigante, elementos clássicos que remetem diretamente ao imaginário das séries de Super Sentai. O protagonista Matheo, recém-escolhido como o novo Ginga-Azul, entra justamente quando a guerra parece chegar ao fim. Porém, o roubo do núcleo de Boulevak mostra que a paz talvez seja apenas uma nova etapa do conflito.


O diferencial da HQ está justamente em explorar o pós-guerra. Ao invés de apostar somente em batalhas e ação desenfreada, Francisco Mauriz trabalha as consequências deixadas pelo conflito, mostrando traumas, adaptação e principalmente a convivência difícil entre humanos e alienígenas derrotados que continuam vivendo na Terra. O preconceito contra esses seres se torna um dos temas centrais da narrativa, funcionando como um reflexo de discussões extremamente atuais. A obra acerta ao mostrar que o medo e a discriminação permanecem vivos mesmo após o fim de uma guerra, trazendo uma camada social que dá mais profundidade ao universo apresentado.
Visualmente e conceitualmente, a HQ dialoga diretamente com fãs de tokusatsu, quadrinhos ocidentais e adaptações de produções japonesas. As referências estão presentes nas armaduras, nos equipamentos, na dinâmica de equipe e no clima militarizado, mas sem soar apenas como homenagem vazia. Existe identidade própria na maneira como o autor mistura ficção científica, drama e heroísmo clássico. O resultado demonstra como o Brasil continua absorvendo influências do gênero para criar histórias originais e relevantes, mantendo vivo um estilo que marcou gerações.


No fim, a HQ de Francisco Mauriz consegue equilibrar nostalgia e proposta autoral. Ao utilizar elementos tradicionais de Super Sentai como ponto de partida, a narrativa encontra espaço para discutir convivência, preconceito e reconstrução após a guerra, sem abandonar o espírito aventuresco que define o gênero. É uma leitura que conversa diretamente com quem cresceu acompanhando heróis japoneses na televisão brasileira ou suas adaptações ocidentais, mas também mostra que ainda existem muitas possibilidades para produções nacionais inspiradas no universo tokusatsu.
Confira nosso podcast sobre quadrinhos nacionais, a vitrine foi feita pelo Francisco Mauriz:

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