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Review: ‘Crepúsculo Sentai’ e os super-heróis japoneses além da nostalgia

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Os quadrinhos vêm se tornando uma ferramenta cada vez mais interessante e cada vez mais utilizada por fãs e entusiastas do gênero tokusatsu para criarem suas próprias histórias. Nesse cenário, Crepúsculo Sentai (2022, Skript Editora) se destaca ao ir além da homenagem e propor uma releitura mais madura desse universo tão presente no imaginário brasileiro.

Com roteiro de Douglas Freitas e arte de Sandro Zambi, a HQ impressiona pelo cuidado visual. A arte é caprichada e dinâmica, conseguindo transmitir bem tanto a ação quanto o peso dramático da narrativa. Ao mesmo tempo, mantém uma identidade que remete diretamente ao as produções do gênero que fizeram sucesso por aqui, sem deixar de dialogar com um público mais atual. A edição ainda conta com texto de abertura de Danilo Modolo do canal Tokudoc.

A história começa com um impacto forte. Um herói veterano, símbolo de décadas de paz, é assassinado logo após uma homenagem pública. Esse evento desencadeia uma série de ataques contra outros heróis, figuras inspiradas em clássicos como Spectreman (スペクトルマン, 1971), Jaspion (巨獣特捜ジャスピオン, 1985), Jiraiya (世界忍者戦ジライヤ, 1988), Jiban (機動刑事ジバン, 1989), Kamen Rider Black (仮面ライダーBLACK, 1987) e séries da franquia Super Sentai, criando um clima de tensão constante e um mistério que conduz toda a narrativa. A investigação leva a uma decisão arriscada, confiar em um antigo vilão que pode ser a chave para entender o que está acontecendo.

Um dos pontos mais interessantes está na escolha de revisitar conceitos clássicos, especialmente ao se inspirar no desfecho do Doutor Gori em Spectreman. A ideia de transformar um antigo antagonista em peça central da trama, com potencial para assumir um papel inesperado, mostra como a HQ trabalha bem a inversão de expectativas.

Antes mesmo do herói ganhar destaque, a própria série começou com o nome do antagonista, inicialmente intitulada Uchuujin Gori (宇宙猿人ゴリ, Macaco Espacial Gori), evidenciando uma inversão incomum onde o vilão ocupava o centro da narrativa. Gori era um conquistador clássico, um cientista genial exilado que desejava dominar a Terra, mas sua motivação carregava uma camada mais complexa: sua revolta vinha da forma como os humanos destruíam o planeta com poluição e degradação ambiental. Ou seja, ao mesmo tempo em que era um invasor e manipulador de monstros, também representava uma crítica direta à humanidade, criando um antagonista que, em certos aspectos, não estava totalmente errado. Essa dualidade é justamente o que torna sua figura tão interessante e serve de base para a releitura proposta em Crepúsculo Sentai, onde a linha entre herói e vilão se torna cada vez mais tênue.

No fim, Crepúsculo Sentai é uma HQ que merece mais atenção, principalmente dos fãs nostálgicos, mas que também tem força para atrair novos leitores. Com uma abordagem mais violenta e adulta, conversa diretamente com quem cresceu com essas produções e hoje busca histórias mais densas. Essa construção passa também por influências claras de obras como Watchmen, especialmente na forma como a narrativa se inicia com a morte de um herói e desenvolve um clima de conspiração e decadência.

Além disso, as referências não se limitam ao tokusatsu, dialogando também com produções da cultura pop mais ampla, incluindo séries como Arquivo X e até elementos que remetem ao cinema nacional. Mesmo sem uma continuação direta da trama principal, o universo foi expandido em 2026 com Crepúsculo Sentai: Alfa & Ômega, publicado pela Editora Tábula, reunindo novas histórias dentro desse mesmo cenário e mostrando que a proposta ainda tem muito espaço para crescer.


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