Nas últimas décadas, o tokusatsu brasileiro passou de simples homenagens e inspirações feitas por fãs do gênero para projetos cada vez mais ambiciosos, capazes de construir universos próprios e dialogar diretamente tanto com o público que cresceu assistindo heróis japoneses na televisão quanto com novas gerações. Em meio a esse movimento surgiu TimerMan, criação de Fabiano Silva, um projeto independente que rapidamente chamou atenção dentro da cena nacional por unir quadrinhos, audiovisual e um amor declarado pelo gênero tokusatsu e por produções de super-heróis.
Mais do que apenas uma homenagem, TimerMan representa aquele tipo de projeto que nasce da vontade de transformar inspiração em criação própria. Fabiano Ferreira, que posteriormente passou a utilizar o nome Fabiano Silva em homenagem à mãe, sempre deixou claro em entrevistas e participações em canais como o Tokucast que o personagem carrega influências diretas das franquias japonesas de tokusatsu. Ao mesmo tempo, também é possível perceber referências ao universo moderno dos filmes de super-heróis, especialmente produções da Marvel, além de animações como Max Steel. O resultado é uma obra transmídia que mistura ação espacial, viagens no tempo, armaduras tecnológicas e o estilo dramático típico dos heróis japoneses das décadas de 1980 e 1990.
A história apresentada na HQ possui uma estrutura bastante familiar para fãs do gênero, mas funciona justamente por abraçar essas referências sem vergonha. Em um futuro distante, a Terra consegue derrotar uma frota alienígena conhecida como Nômades. Sem alternativas, os invasores decidem voltar ao passado para conquistar o planeta antes da resistência humana existir. Para impedir isso, a androide Yane é enviada ao presente para encontrar alguém compatível com o traje experimental T.I.M.E.R.MAN. Esse escolhido acaba sendo Fabiano Ferreira, um professor de educação física do Rio de Janeiro e fã de tokusatsu desde criança, que se vê no meio de uma guerra temporal muito maior do que imaginava.
A primeira HQ publicada pela Editora Kimera funciona quase como uma grande apresentação desse universo. O roteiro aposta em uma narrativa acelerada, cheia de conceitos, personagens e ameaças sendo introduzidos constantemente, algo bastante comum em produções independentes que precisam conquistar o leitor rapidamente. Mesmo assim, TimerMan consegue encontrar espaço para construir sua identidade própria, principalmente pela ambientação brasileira e pela forma como transforma um cidadão comum em herói sem abandonar suas origens. O fato do protagonista ser um professor de educação física ajuda a aproximar o personagem do público e cria uma sensação diferente dos arquétipos tradicionais vistos em muitas produções japonesas.


Visualmente, o trabalho de Francisco Mauriz é um dos grandes destaques da obra. O artista entrega páginas cheias de energia, com enquadramentos dinâmicos, armaduras detalhadas e cenas de combate que claramente tentam reproduzir a sensação de assistir a um episódio de uma série tokusatsu em versão impressa. Existe também um cuidado evidente em equilibrar influências orientais com uma estética ocidental mais moderna, utilizando cenários reais como a cidade do Rio de Janeiro para fortalecer a identidade da obra. Isso aproxima o material tanto dos fãs de produções japonesas quanto de leitores acostumados com quadrinhos de super-heróis americanos.
A segunda edição amplia ainda mais o universo da série. Após os eventos iniciais, Fabiano e Yane continuam sua jornada enquanto enfrentam uma nova ameaça ligada aos chamados Nove Arautos da Morte. A narrativa ganha um tom mais ambicioso, expandindo a mitologia da franquia e aumentando a sensação de que existe algo muito maior acontecendo nos bastidores daquela guerra temporal. Mesmo mantendo algumas limitações naturais de projetos independentes, a HQ demonstra evolução tanto no ritmo quanto na construção de mundo.
Outro aspecto interessante de TimerMan é justamente sua tentativa constante de ultrapassar os quadrinhos. Desde o início, o objetivo dos criadores sempre foi transformar o personagem em uma produção audiovisual completa. O episódio piloto em live-action lançado no YouTube funciona quase como uma carta de intenções do projeto, apresentando uniformes, efeitos visuais e cenas de ação que, dentro da realidade de uma produção independente brasileira, impressionam bastante e conseguem capturar o espírito das séries japonesas clássicas. A abertura cantada por Rafael Pinheiro, conhecido pelo trabalho no canal YouDubb, ajuda ainda mais nessa imersão nostálgica, reforçando o clima das séries televisivas exibidas durante os anos 1990.
O curta-metragem TimerMan: Contratempos acabou se tornando uma das fases mais ambiciosas do projeto. A produção buscava profissionalizar ainda mais o universo do herói e servir como base para futuras expansões em formato de série ou até longa-metragem. Embora a campanha ligada ao curta não tenha alcançado sua conclusão completa, ela deixou evidente o tamanho da dedicação envolvida na tentativa de transformar TimerMan em algo maior dentro da cultura pop brasileira.
Em 2026, o canal oficial de TimerMan no YouTube publicou um novo teaser indicando novidades para o projeto, reacendendo a expectativa de quem acompanha essa trajetória desde o início e aguarda não apenas a continuação dos quadrinhos, mas também novos conteúdos em live-action e em animação.



Talvez seja justamente aí que esteja a maior força da obra. TimerMan entende perfeitamente o público que deseja atingir, abraçando sem vergonha os clichês clássicos dos super-heróis, sejam japoneses ou ocidentais, com poses heroicas, vilões extravagantes, discursos sobre coragem e amizade e toda a energia exagerada característica desse tipo de produção. Ao mesmo tempo, adapta esses elementos para uma identidade brasileira, criando um projeto claramente feito por fãs que cresceram admirando heróis japoneses e decidiram construir seu próprio espaço dentro desse universo.
Confira também nosso review em áudio sobre TimerMan, com a participação de Fabiano Silva, o próprio criador e também a criatura por trás do herói:

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