Depois de estabelecer as bases políticas, sociais e culturais do Japão pré-guerra no primeiro volume, Shigeru Mizuki transforma Showa: Uma História do Japão Vol. 2, lançado no Brasil pela editora Devir, em uma obra ainda mais pesada, claustrofóbica e brutal, sem abandonar o lado dramaticamente cômico que permeia sua própria trajetória pessoal. Se a edição anterior funcionava como uma construção gradual da militarização japonesa, aqui vemos o impacto direto desse processo, acompanhando os anos de 1939 a 1944 em meio à expansão militar do Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Mais do que uma simples continuação, este segundo volume funciona quase como o ápice da tensão construída anteriormente, mergulhando o leitor em um período onde propaganda, nacionalismo e violência passam a dominar completamente o cotidiano japonês.
Assim como no primeiro volume, Mizuki utiliza uma combinação extremamente eficiente entre narrativa histórica e autobiográfica. O diferencial continua sendo justamente a forma como ele humaniza acontecimentos gigantescos da história mundial através de pequenas experiências pessoais, criando uma leitura que nunca parece um simples livro didático ilustrado. Ainda assim, existe uma mudança perceptível no tom. Enquanto o primeiro volume equilibrava melhor momentos cotidianos, humor e contexto social, este segundo mergulha muito mais profundamente na guerra em si, dedicando longos trechos às campanhas militares, estratégias navais, decisões políticas e batalhas que definiram o conflito no Pacífico.
Isso faz com que a leitura seja mais densa em vários momentos, mas também reforça o sentimento de desgaste e sufocamento que o próprio Japão vivia naquele período. A obra acompanha desde o avanço japonês pela Ásia até eventos históricos extremamente conhecidos, como o ataque a Pearl Harbor e a Batalha de Midway, além de conflitos menos populares no Ocidente, como as campanhas nas Índias Orientais Holandesas e diversas ofensivas marítimas no Pacífico. Mizuki detalha o funcionamento da máquina militar japonesa de maneira quase documental, evidenciando como propaganda, orgulho nacional e manipulação política alimentavam uma população que pouco entendia da dimensão real do conflito.

Um dos aspectos mais interessantes é justamente a forma como o autor trata figuras históricas controversas. Hideki Tojo, por exemplo, surge não apenas como símbolo do militarismo japonês, mas também como uma figura contraditória dentro da própria sociedade japonesa. Mizuki não suaviza seus atos, mas também evita transformar a narrativa em algo simplista, preferindo mostrar como decisões absurdas eram sustentadas por uma lógica nacionalista que contaminava todas as camadas da sociedade. Esse cuidado torna a leitura ainda mais rica, principalmente porque o autor claramente escreve a partir de alguém que viveu aquele período e testemunhou suas consequências.
E é justamente quando a obra deixa os grandes mapas políticos e se aproxima da experiência pessoal de Mizuki que o mangá alcança seus momentos mais fortes. O autor continua retratando sua versão jovem de maneira quase autodepreciativa, como um rapaz preguiçoso, glutão e sem grandes perspectivas, mas conforme a guerra avança, essa imagem vai ganhando novas camadas. Existe uma sensação constante de vazio e fatalismo em sua visão de mundo, reforçada pela percepção de que os jovens japoneses daquela época dificilmente enxergavam qualquer futuro além da guerra.
Antes mesmo de ser enviado ao front, Mizuki já demonstra uma busca existencial bastante forte, mergulhando em estudos de filosofia e religião numa tentativa de encontrar sentido em meio à possibilidade constante da morte. Esse detalhe adiciona uma profundidade enorme ao personagem autobiográfico e ajuda a entender melhor como suas experiências moldariam toda sua obra futura, tanto nos trabalhos históricos quanto em séries como GeGeGe no Kitaro.



Quando finalmente acompanhamos sua ida para Rabaul, na Papua-Nova Guiné, o tom da obra muda novamente. O conflito deixa de ser apenas números, mapas e navios afundados para se tornar sobrevivência pura. Mizuki mostra não apenas o horror dos ataques aliados, mas também a brutalidade do próprio exército japonês contra seus soldados. Treinamentos desumanos, violência psicológica e abusos constantes aparecem como parte normal da rotina militar, desmontando completamente qualquer visão romantizada da guerra.
Curiosamente, apesar de retratar um dos períodos mais violentos do século XX, Mizuki raramente utiliza violência gráfica explícita. Explosões, tiros, bombardeios e destruição aparecem com enorme impacto visual, mas as mortes humanas geralmente permanecem sugeridas ou representadas de maneira indireta. Isso torna vários momentos ainda mais perturbadores, especialmente nas cenas envolvendo soldados mortos ou sobreviventes traumatizados. O uso de sombras pesadas e áreas completamente tomadas pela tinta preta cria imagens extremamente melancólicas e sufocantes.
Visualmente, o trabalho continua impressionante. O nível de detalhamento dos cenários, navios, aviões e ambientes militares é absurdo, reforçando o caráter quase documental da obra. Ao mesmo tempo, Mizuki mantém o contraste estilístico já visto no primeiro volume, alternando figuras históricas desenhadas de forma mais realista com personagens caricatos, principalmente quando envolve sua família ou o personagem Nezumi-Otoko, utilizado como uma espécie de comentarista dos acontecimentos. Esse contraste continua funcionando muito bem e ajuda a tornar uma leitura tão pesada mais fluida.



Outro elemento que chama atenção é como o autor consegue transmitir a sensação de manipulação coletiva dentro do Japão da época. Boa parte da população recebia apenas notícias de vitórias e avanços militares, enquanto derrotas enormes eram ocultadas pelo governo. A própria derrota em Midway, um dos momentos decisivos da guerra, permaneceu desconhecida para muitos japoneses até o fim do conflito. Mizuki evidencia constantemente como a propaganda estatal moldava a percepção pública, criando uma falsa sensação de controle enquanto a situação do país piorava drasticamente.
Para quem acompanha tokusatsu e cultura pop japonesa, Showa continua sendo uma leitura extremamente importante justamente por contextualizar o Japão que mais tarde daria origem a várias das obras que moldariam o gênero. Muitas das cicatrizes sociais, dos medos coletivos e das reflexões sobre destruição presentes em franquias como Godzilla, Ultraman e diversas outras produções das décadas seguintes nascem diretamente desse período traumático vivido pelo Japão durante e após a guerra, além da forte influência ocidental que passou a remodelar a cultura japonesa no pós-guerra.
No fim das contas, Showa Vol. 2 talvez seja uma leitura menos “leve” e menos equilibrada que o primeiro volume justamente por sua natureza mais focada no conflito militar, mas isso não diminui sua importância. Pelo contrário. A obra funciona como um retrato duro, crítico e profundamente humano de um país consumido pela guerra, mesmo sem expor nem metade das atrocidades cometidas durante o período, ao mesmo tempo em que amplia ainda mais a dimensão autobiográfica de Shigeru Mizuki. Mais do que contar a história do Japão, Mizuki expõe como indivíduos comuns foram arrastados por decisões políticas gigantescas, criando uma narrativa que continua extremamente atual e relevante mesmo décadas depois de sua publicação.
Confira resenha do volume 1:

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