Ultraman: O Mistério de Ultraseven (The Mystery of Ultraseven, 2022-2023), publicado originalmente pela Marvel Comics em 2022 e lançado no Brasil pela Panini, representa o terceiro capítulo da releitura moderna do universo Ultra produzida em parceria com a Tsuburaya Productions. Dando continuidade direta aos acontecimentos de A Ascensão de Ultraman e Os Desafios de Ultraman, a minissérie mostra como a proposta da Marvel nunca foi apenas adaptar Ultraman (ウルトラマン, 1966) para os quadrinhos ocidentais, mas reconstruir toda a mitologia clássica da franquia dentro de uma narrativa mais política, conspiratória e conectada. Desde o início, fica evidente que o projeto utiliza elementos de praticamente todas as primeiras séries da era Showa (1926-1989), incluindo referências diretas a Ultra Q (ウルトラQ, 1966), ampliando o escopo do universo compartilhado construído desde 2020.
O maior destaque aqui naturalmente é Ultraseven (ウルトラセブン, 1967). Diferente da abordagem mais tradicional das séries originais, a HQ trabalha o personagem quase como uma entidade quebrada entre dever, memória e identidade. A relação entre Dan Moroboshi e Seven ganha uma camada mais trágica ao explorar o período em que ambos ficaram presos em outra dimensão após os eventos anteriores, retornando profundamente alterados. Ao mesmo tempo, a ausência de Shin Hayata como Ultraman durante parte da trama cria um clima de tensão constante, reforçando a ideia de que o planeta está vulnerável enquanto conspirações internas começam a corroer a própria PCU. A história assume um tom quase paranoico em certos momentos, lembrando bastante o clima político e investigativo que algumas fases mais sombrias da franquia Ultra exploraram no Japão.



Um dos aspectos mais interessantes da minissérie é justamente a forma como os roteiristas reaproveitam conceitos obscuros da era clássica. A diretora Morheim, por exemplo, se revela ligada ao Povo Subterrâneo, raça apresentada originalmente no episódio 22 de Ultraman, A Destruição da Terra (地上破壊工作). Na série de 1966, os habitantes subterrâneos tentavam dominar Ultraman utilizando manipulação mental e o kaiju Telesdon, além de possuírem extrema sensibilidade à luz. A HQ moderniza essa ideia e transforma a raça em peça central da conspiração envolvendo a PCU e os bastidores políticos da Terra. É exatamente esse tipo de recuperação de conceitos esquecidos que faz a linha da Marvel funcionar tão bem: não existe apenas fanservice, mas uma tentativa genuína de reorganizar décadas de lore dentro de uma nova continuidade coerente.
Ao mesmo tempo, a HQ continua expandindo o universo dos Ultras de maneira bastante ousada. Aqui temos a introdução da versão deste universo de Ultraman Jack de O Retorno de Ultraman (帰ってきたウルトラマン, 1971), mas reinterpretado como um gigantesco mecha modular criado para combate contra kaijus. É uma mudança radical em relação ao material original, mas que funciona surpreendentemente bem dentro da proposta sci-fi militar construída pela Marvel. E mesmo sendo o Mistério de Ultraseven, a HQ claramente prepara terreno para algo maior, abrindo espaço para futuras aparições de Ultraman Ace (ウルトラマンA, 1972) e até do Pai dos Ultras, ampliando ainda mais a sensação de que estamos vendo a construção gradual de uma versão própria da era Showa.



Visualmente, o trabalho de Davide Tinto mantém a identidade cinematográfica das minisséries anteriores, mesmo apresentando um estilo um pouco diferente de Francesco Manna. As cenas de ação possuem boa escala, especialmente nos confrontos envolvendo Seven, Eleking e os ataques kaiju espalhados pela cidade. Existe um cuidado evidente em traduzir para os quadrinhos a sensação do próprio gênero tokusatsu, tanto na composição dos quadros quanto na maneira como os Ultras são retratados quase como entidades luminosas acima da compreensão humana. A arte também ajuda bastante a vender o clima de mistério da trama, principalmente nas cenas envolvendo Morheim e as conspirações internas da PCU, que carregam uma atmosfera constantemente desconfortável.
No fim, O Mistério de Ultraseven talvez seja a minissérie mais ambiciosa dessa fase da Marvel até agora. Mais do que apenas revisitar personagens clássicos, ela transforma elementos esquecidos das primeiras séries em peças fundamentais de uma narrativa moderna e interligada. A obra consegue equilibrar ação de kaijus, drama político, conspirações intergalácticas e homenagens profundas ao legado da franquia sem perder identidade própria. Para quem cresceu acompanhando o universo Ultra, a HQ funciona quase como uma carta de amor cheia de referências inteligentes. Já para novos leitores, continua sendo uma excelente porta de entrada para entender por que Ultraman permanece relevante quase seis décadas depois de sua criação.

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