Em um mercado editorial brasileiro ainda carente de materiais impressos sobre tokusatsu, Changeman, Jaspion, Jiraiya & Cia., de João Lobato, lançado pela Editora Matrix em 2013, é uma boa porta de entrada para fãs nostálgicos que não conhecem o gênero. O livro mergulha na febre que tomou conta do Brasil no fim da década de 1980, quando séries japonesas invadiram a programação da televisão brasileira e ajudaram a criar uma verdadeira indústria de produtos, fandom e conteúdo que ecoa até hoje.
João Lobato construiu um panorama sobre o nascimento do tokusatsu, contextualizando suas origens, influências e o sucesso do gênero no Brasil. O foco principal está nas produções da Toei Company, especialmente nas franquias relacionadas às três séries que dão nome ao livro, mas também há espaço para mencionar produções de outras empresas exibidas no país. Com uma leitura dinâmica, leve e bem-humorada, o autor revisita a trajetória dessas séries em solo brasileiro, trazendo curiosidades sobre episódios, personagens e detalhes da exibição nacional, além de explorar influências, referências e temas ligados ao gênero.
O livro ainda traz entrevistas com nomes curiosos ligados ao universo das adaptações ocidentais, como o ator e dublê Matt Mullins, intérprete de Len em Kamen Rider: O Cavaleiro Dragão (Kamen Rider: Dragon Knight, 2008–2009), adaptação da série Kamen Rider Ryuki (仮面ライダー龍騎, 2002); Hiroo Minami, suit actor e stuntman envolvido em produções de Power Rangers, adaptações da franquia Super Sentai; além de Kaio Lopes, fã brasileiro do gênero.


Embora seja uma leitura agradável, algumas escolhas editoriais e nomenclaturas poderiam ter passado por uma revisão mais cuidadosa. Termos como “Gayban” para Gavan (宇宙刑事ギャバン, 1982), “Space Cop” para se referir a Sharivan (宇宙刑事シャリバン, 1982) e Shaider (宇宙刑事シャイダー, 1984), que não tiveram esse título no Brasil, “Cybercops” no plural para Cybercop, os Policiais do Futuro (電脳警察サイバーコップ, 1988) ou “Beetle Fighter Kabuto” para falar de B-Fighter (重甲ビーファイター, 1995) soam imprecisos e podem incomodar fãs mais atentos, assim como o uso de “Supersentai” escrito de forma unificada. Há também pequenas imprecisões técnicas ao longo do texto e, ao abordar a origem do tokusatsu, faltou destacar a importância de Ultraman (ウルトラマン, 1966), fundamental para consolidar o gênero na televisão japonesa, indo além de referências como Godzilla (ゴジラ, 1954) e do nome que conecta essas obras, Eiji Tsuburaya.
Para o fã veterano e mais hardcore, o livro talvez não traga novidades. Quem já consome conteúdo online, pesquisas, canais e materiais mais aprofundados dificilmente encontrará grandes revelações ou informações inéditas sobre bastidores e curiosidades. Nesse sentido, a obra funciona mais como um compilado acessível e nostálgico, servindo como introdução para quem cresceu assistindo o O Fantástico Jaspion (巨獣特捜ジャスピオン , 1985), Esquadrão Relâmpago Changeman (電撃戦隊チェンジマン, 1985) e Jiraiya, o Incrível Ninja (世界忍者戦ジライヤ, 1988).
Mesmo com suas limitações, Changeman, Jaspion, Jiraiya & Cia. tem seu valor e merece reconhecimento pela iniciativa. A obra de João Lobato entrega uma leitura leve, nostálgica e feita com evidente carinho pelo tema. Pode não ser a enciclopédia definitiva que fãs veteranos procuram, mas funciona bem como um primeiro passo para quem deseja conhecer mais sobre o gênero a partir das lembranças da infância. No fim, é uma recomendação válida tanto para revisitar esses heróis quanto para entender um pouco do porque estas produções marcaram uma geração no Brasil.

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