Quem diria que as franquias Super Sentai e Power Rangers não estariam mais no ar em pleno 2026? Para nós, fãs de tokusatsu, essa possibilidade poderia parecer uma utopia há 10 ou 20 anos. Embora tenham surgido em contextos culturais diferentes, as duas franquias mantiveram uma relação de interdependência durante décadas, sustentando seus respectivos modelos de produção e comercialização.
Isso ficou evidente após o lançamento de Power Rangers: Fúria Cósmica (Power Rangers Cosmic Fury, 2023), a 30ª temporada da franquia e a última a seguir o modelo tradicional de adaptação das produções japonesas. Além de celebrar os 30 anos dos heróis multicoloridos, a temporada marcou o encerramento de um ciclo. Era o fim do formato ao qual estávamos acostumados, com cenas, personagens e elementos reaproveitados das séries Super Sentai.

A mudança ocorreu porque a Hasbro decidiu investir em um formato independente das produções japonesas. O novo projeto, inicialmente associado aos produtores Jonathan E. Steinberg e Dan Shotz, conhecidos também por Percy Jackson e os Olimpianos (Percy Jackson and the Olympians, 2023), ainda não saiu do papel após enfrentar dificuldades para avançar nas plataformas de streaming Netflix e Disney+.
Até o momento, o Prime Video aparece nas negociações para dar início à produção. Ainda é cedo, porém, para afirmar que o projeto realmente sairá do papel. A realidade é que Power Rangers está em um hiato de duração indefinida. E isso, consequentemente, também afetou a franquia Super Sentai.
Sem Power Rangers como parte desse modelo de negócios, a franquia japonesa da Toei Company passou a enfrentar dificuldades relacionadas à queda na receita proveniente da venda de brinquedos. No.1 Sentai Gozyuger (ナンバーワン戦隊ゴジュウジャー, 2025), a mais recente série de Super Sentai, teve uma trajetória complicada, marcada por escolhas criativas controversas e problemas nos bastidores. A produção apresentou personagens que nem sempre conseguiram conquistar o público, homenagens que poderiam ter sido mais bem aproveitadas e a saída da atriz Maya Imamori após uma polêmica. O desfecho da série também foi tema de discussões envolvendo a roteirista Akiko Inoue e a equipe de produção, como abordamos nesta reportagem sobre o final de Gozyuger e o desempenho comercial da série.

O hiato de Super Sentai, que, segundo Shinichiro Shirakura, responsável pelo Departamento de Estratégia de Personagens da Toei Company, pode durar dez anos, conforme relatado nesta matéria sobre os motivos para o fim da franquia, pode ser interpretado como um mal necessário por dois motivos.
O primeiro é que, com ou sem Power Rangers, a franquia japonesa já não demonstrava a mesma força de outros tempos, como na época de Kaizoku Sentai Gokaiger (海賊戦隊ゴーカイジャー, 2011). As fórmulas estavam desgastadas, e era necessário abrir espaço para novas ideias. Cinquenta anos de história representam um legado impressionante, mas também trazem o desafio de manter uma produção relevante para novas gerações sem perder a identidade construída ao longo das décadas.
O segundo motivo envolve as amarras contratuais entre Super Sentai e a Hasbro, atual detentora dos direitos de Power Rangers. Essas relações também representavam um obstáculo para a exportação das produções japonesas originais. Não que a distribuição internacional fosse impossível, mas, desde que a Hasbro adquiriu Power Rangers, em 2018, até mesmo as séries antigas que nunca receberam adaptações ocidentais passaram a fazer parte de um cenário comercial mais complexo.

Para a Toei Company se reerguer e buscar novas oportunidades, era necessário desenvolver uma franquia capaz de ocupar esse espaço. Foi nesse contexto que surgiu o Project R.E.D. (Records of Extraordinary Dimensions). Ainda é cedo para avaliar os resultados dessa iniciativa e saber se ela conseguirá conquistar o público e estabelecer uma identidade própria. Pelo menos, os fãs brasileiros finalmente têm uma dobradinha do Super Hero Time graças à distribuição da Sato Company, como destacamos na coluna sobre o sábado do tokusatsu e o auge do Clube de Membros TokuSato.
No dia da publicação desta coluna, completa-se um ano desde que surgiram as notícias extraoficiais sobre o possível fim de Super Sentai, inicialmente divulgadas por veículos japoneses e posteriormente seguidas por comunicados oficiais. Na época, publicamos a notícia sobre a possibilidade de encerramento da franquia após 50 anos, seguida pela confirmação da decisão em reportagem sobre o anúncio da TV Asahi.

Ainda não sabemos ao certo se Super Sentai voltará ou se o Project R.E.D. conseguirá se consolidar como uma nova aposta de sucesso da Toei Company. Power Rangers, por sua vez, continua com o futuro incerto. O mundo está diferente sem os heróis multicoloridos que, durante décadas, fizeram parte da programação televisiva e da infância de milhões de pessoas. Por enquanto, essas produções passaram a integrar a história do entretenimento.
Como diria Patropi, personagem do saudoso Orival Pessini: “Agora sim, o mundo já não é mais o mesmo!”
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